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As peculiaridades de trabalhar em livraria

Durante o período de Natal de dezembro do ano passado, aproveitei para ganhar uma graninha trabalhando numa livraria. O mais engraçado é que todo mundo chega e fala… “nossa, deve ser o emprego dos sonhos, ficar rodeada por todos esses livros!”. Ok, é realmente uma delícia trabalhar com livros, aprender muito todos os dias. Mas, quer queira quer não, ainda é um ramo do comércio. Ou seja, muita irritação – ainda mais no Natal. Amei trabalhar nesse período, conheci autores e livros incríveis, além de ter contato com clientes super interessantes.

Mas, claro que nós, vendedores, somos os alvos de clientes bizarros. Talvez a parcela da população que vá à livraria e tenha probleminhas na cabeça seja maior do que a parcela que realmente gosta de trocar ideias com os vendedores. Isso eu vivenciei – não busquei aleatoriamente em algum lugar, não, minha gente. Nesse período do Natal, principalmente, é super comum encontrar uns calos desse tipo.

A princípio, a galera que adora NÃO falar bom dia, boa tarde, boa noite. Ou pelo menos um oi. Já chega na livraria “aqui, você tem o livro tal?”. Ou pior, aquelas senhoras que te tratam como uma pessoa qualquer: “ô mocinha, me vê um livro aqui, fasfavô”. É o típico estereótipo da mulher velha, rica, que quer que a tratem como madame e sai da livraria com Augusto Cury e Cinquenta Tons de Cinza debaixo do braço. Nunca fui tão chamada de mocinha, menininha, baixinha e derivados na minha vida. :P

Quando você trabalha em uma livraria, não pode jamais julgar o gosto de um cliente. Pelo menos não em voz alta. Se ele quer saber onde ficam os top 10 best-sellers da Veja você vai lá e mostra. E depois sai correndo para as colinas.

O impressionante é que as pessoas, quando chegam numa livraria, querem se passar por inteligente. Mesmo que só tenha lido dois livros do Luís Fernando Veríssimo na vida. Pede umas sugestões legais de livros e tal, mas acha que as sugestões do vendedor não são boas. Nesses casos, eu realmente tentei, acreditem. Vou indicando livros que gosto e outros que não são muito a minha praia, mas que podem agradar o cliente. Mas dá para ver que algumas pessoas só estão passando tempo por ali. Então pode ficar à vontade, tá? Adeus.

Uma coisa que deixa qualquer vendedor sentido (sentido de verdade!) é quando chega um cliente procurando livros interessantes que não constam no estoque. Já atendi um cara procurando A Insustentável Leveza do Ser, um livro do Hobsbawn que esqueci o nome agora, Orgulho e Preconceito e O Apanhador no Campo de Centeio. Não tinha n-e-n-h-u-m! Eu fico com muita dó, gente, vocês não estão entendendo. Queria muito achar os livros na estante para conversar mais com o cliente, trocar indicações… Algumas vezes até dá para conversar, mas ele tem que sair a procura do livro que quer, né? Tchau, depois você volta, tá? :'(

Queria muito explicar uma coisa: os vendedores de livro (ou livreiros) não são obrigados a saber o título daquele livro AQUELE, sabe?? Daquele autor que começa com A! Como assim você não sabe??? Simples: não tenho bola de cristal! Por favor, cheguem com o nome do livro, do autor e da editora (ou ISBN, que também rola!). Caso não dê, peloamordedeus, pelo menos saiba o nome do livro quando for comprá-lo. Não dá para adivinhar esse tipo de coisa (infelizmente)!

Entretanto, eu também sou cliente, né? Fico meio frustrada quando chego em uma livraria e o vendedor não tem paciência ou um mínimo de conhecimento. Não precisa ser expert, mas né? Precisa entender daquilo que está vendendo (em livraria ou qualquer outro tipo de loja). Fui à Leitura mês passado e pedi para um rapaz (que trabalhava na seção de literatura) me mostrar onde ficavam os livros do Hemingway.

– Quem?
– Hemingway.
– Pode soletrar?
– H-E-M-I-N-G-W-A-Y.
– Errr, não temos. (ele diz depois de uma consulta rápida no computador)
– E do Fitzgerald?
– Quem?
– F-I-T-Z-G-E-R-A-L-D. Procura pelo títulos: Suave é a Noite ou Os Belos e Malditos – é o autor desses livros.
– Não, também não tem.
– Ok, onde fica a parte de literatura estrangeira?

E aí, chegando nas prateleiras, eis que me deparo com, pelo menos, uns cinco títulos diferentes do Hemingway. Custava ter dado uma olhadinha melhor? Eu sempre me desdobrei na livraria para achar um título, mesmo que não conste no computador (eu posso ter escrito errado ou ter dado problema no sistema mesmo), creio que seja uma obrigação de vendedor. Mas só para não ser tão chata com ele, procurei pelo Fitzgerald e não tinha mesmo. Pois é, nesse, ele estava certo! Atendimento incrível eu tive na Livraria Cultura do Rio de Janeiro. A vendedora super gente boa, me deu dicas e comentou sobre alguns determinados títulos. Bem que podia rolar uma Cultura aqui em BH, hein??

Mas, se vocês querem ler alguns causos que acontecem (de verdade mesmo, viu) em ambientes propícios como uma livraria, indico fortemente o [ manual prático de bons modos em livrarias ]. O blog é incrível e não dá vontade de parar de ler, consegui me ver mesmo em algumas situações. Ah, esses clientes peculiares que aparecem em livrarias…

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21 comentários

  1. Vanessa 14 de janeiro de 2013
    às 14:24

    Adoro o Manual, me divirto muito por lá! E nossa, acontece cada coisa mesmo em livraria, tanto com o vendedor, como também com o cliente. Eu pelo menos sofro muito quando vou em uma. E esse lance de achar que trabalhar em livraria é um máximo sempre rola hehehe

  2. Bianca Ladyhawke 14 de janeiro de 2013
    às 14:44

    A pior parte pra mim é quando eu resolvo querer um livro, descubro que ele virou modinha e passou de R$20 pra R$50 por causa disso =(

    1. Gabi 15 de janeiro de 2013
      às 13:14

      Pois é… o problema é que, quando sai um filme ou algo do tipo, as editoras lançam novas edições (consequentemente encarecendo o produto). O jeito é aguardar a poeira baixar. Aconteceu com O Morro dos Ventos Uivantes. Depois que ele foi mencionado em Crepúsculo, o livro ficou mais caro… Mas agora tá até tranquilo de achar edições mais baratas, já que o boom passou, hahah. :)

  3. Monique 14 de janeiro de 2013
    às 15:32

    Adorei o post! Meus pêsames! hehehe

  4. Vani 15 de janeiro de 2013
    às 11:12

    Adorei o post! Sabe que sempre quis trabalhar em uma livraria? Ou ter uma, quem sabe… acho muito legal, mas é sofrido ir em uma mesmo! Sou historiadora e NUNCA tive o prazer de encontrar um funcionário de livraria que facilitasse minha busca por livros, hahahaha. Eles sempre pedem para soletrar os autores e no final das contas eu acabo preferindo procurar sozinha ou pedir pela internet… Daí minhas idas à livrarias acabam sendo mesmo só para visitar a seção infanto-juvenil em busca de presentes para minha sobrinha, ou para folhear algumas novidades nas seções que me interessam.

    De todo modo, muito bom o post e a dica de blog, há tempos estava procurando algum com conteúdo assim legal… Ah, e só uma observação, adivinhar tem “i” antes do “v”. ;)

    1. Gabi 15 de janeiro de 2013
      às 13:08

      Penso muito em ter uma livraria também, Vani. Deve ser uma dor de cabeça, mas uma delícia trabalhar com livros. E valeu! O “i” saiu batido, hahah!

  5. Tereza 17 de janeiro de 2013
    às 13:21

    Nossa, que experiencia massa!
    Os atendentes da Livraria Cultura são os melhores, alguns até meio esnobes, mas ne.. nada é perfeito.
    As vezes saio analisando os vendedores e vendo qual deles pode saber do livro que estou procurando. Raramente vou até um atendente lindo, alto e sarado perguntar da Jane Austen, mas pergunto sim, onde esta o livro “Amor, meu grande amor” do (le o nome dele no crachá) “Vendedor Paulo”.

    Cantada numa livraria, quem nunca? hsuahs

    1. Gabi 17 de janeiro de 2013
      às 13:56

      HAHAH! Essa foi boa! xD

    2. cleia lima 22 de março de 2016
      às 12:56

      kkkkkkkk
      adorei

  6. Annina Barbosa 17 de janeiro de 2013
    às 13:40

    Trabalhei em livraria por um ano e meio e até hoje acho livro mais facilmente que alguns vendedores da Saraiva. Vou direto pelos símbolos das editoras, rs.

    Aí em BH tem Travessa? Em algumas, eu me sinto meio burra, sabe?
    Mas é porque eu acho que alguns (poucos, é verdade) vendedores fazem questão de se exibir e meio que te diminuir… uma vez cheguei querendo algum livro sobre a Segunda Guerra, falando mais sobre o ponto de vista dos judeus e tals e percebendo que eu não conhecia títulos que ELE conhecia, o vendedor meio que age com desdém.
    Acho tãããããoooo desnecessário!

    Mas eu AMO livrarias! Sinto até saudade de trabalhar lá! ;)

    1. Gabi 17 de janeiro de 2013
      às 14:01

      Ainda não peguei nenhum vendedor esnobe, só aqueles que querem entregar o seu livro e tchau. Nem sei o que é pior, hahah! Em BH tinha Travessa, mas ela virou Mineiriana agora. É da mesma família então meio que não mudou de dono, só de nome. :P Eu gosto muito das duas livrarias, mas eu babo mesmo é na Cultura – principalmente a de São Paulo do Conjunto Nacional. Nossa mãe, quase tive um infarto quando entrei na loja! xD

    2. fernanda trancoso 20 de janeiro de 2013
      às 23:38

      sempre me deparo com vendedores esnobes também! é super desnecessário :\\

  7. MOnique camila 17 de janeiro de 2013
    às 22:29

    Eu imagino que deve ser uma máximo trabalhar em uma livraria. Eu nunca tive a oportunidade de ir em uma, aqui na minha cidade não tem. Apenas bibliotecas da escola e da prefeitura ( que já está em decadência). Creio que é uma experiência e tanto. Mesmo com clientes mal educados e tudo mais. Acho que vale a pena.
    bjão

  8. fernanda trancoso 20 de janeiro de 2013
    às 23:35

    ei! também sou de bh, acabei de conhecer seu blog e preciso dizer que me identifiquei com TUDO que você escreveu! nunca trabalhei em uma livraria, mas sempre que vou a uma percebo esses tipos de clientes!! bh precisa mesmo de uma livraria cultura, quando eu fui pra sao paulo e me deparei com aquela belezura enlouqueci! acho que faltam muitos vendedores mais atenciosos em bh, adoro ir na status e no café com letras, mas nem tenho coragem de pedir ajuda aos vendedores, quase sempre que pergunto alguma coisa são super grossos e frigidos sabe? é muito ruim entrar em um lugar cheeio de livros bons sem poder se sentir confortável pra procurar um especial. se eu pergunto, vem uma resposta nem um pouco atenciosa, se não falo nada, o vendedor pergunta a cada 5 minutos se preciso de ajuda! é bem chatinho né? amei seu blog!!mal posso esperar por novos posts, beijos :))

  9. Dani Fuller 21 de janeiro de 2013
    às 19:57

    aauhauhauahua meu deus que situação, mas realmente independente do ramo.. comércio e banco são problemas. Parece que tem gente que sai de casa apenas para ir lá e irritar alguém. Olha queria dar uma sorte dessas de ser atendida por alguém que conhece tanto hein… eu nunca tive. Sempre a pessoa parece tapada, mas não pela personalidade em si… mas de conhecimento em livros… sempre me pergunto.. gente qual motivo de pessoas que se identificam com aquilo não trabalharem lá (como eu) e as que não se identificam trabalharem? É totalmente louco e injusto… mas no fundo sei que não aguentaria… afinal não iremos lidar só com a parte boa rs rs rs.
    Mas valeu a experiência e é isso q importa…
    ps.: Eu trabalhava em banco, por isso citei isso… pois apesar de não ter ‘livros’, os clientes são os mesmos ehehe

  10. Paula Carolina 8 de fevereiro de 2013
    às 19:12

    Eu sou bibliotecária, fui estagiária de biblioteca pública municipal…então imagine só os perfis que apareciam por lá!!!
    Passei odiar Augusto Cury sem nunca ter lido, peguei birra dos 158 da classificação, que são os de auto ajuda.
    Mas enfim, com o tempo acabei aprendendo a respeitar o gosto e a necessidade das pessoas, afinal a minha função é fazer com que o usuário consiga a informação que ele deseja, claro que sempre tentando mostrar alguma coisa mais legal ou interessante, mas só o fato dele buscar uma biblioteca hoje em dia é uma oportunidade de fazer com que volte mais vezes.

  11. Ramon 9 de julho de 2013
    às 19:01

    Muito bom o seu texto! Uma pergunta: qual é o salário-base para quem trabalha nessa área? bjs!

  12. Mariana Campista Chagas 29 de janeiro de 2014
    às 00:54

    Olá gabi, gosto muito do seu blog, e obviamente as indicações de livros. Gostaria de saber quais são os pré requisitos pra trabalhar em uma livraria? Gostaria muito de umas dicas, tenho muita vontade de trabalhar em uma, pois sou apaixonada por leitura… beijão

    1. Gabi 29 de janeiro de 2014
      às 15:25

      Oi, Mariana, tudo bem? Bom, acho que os dois requisitos principais são: amar livros e saber lidar com pessoas. E o segundo é a parte mais difícil. Mas o tanto que você aprende trabalhando em uma livraria compensa. :)

  13. Sybylla 7 de julho de 2014
    às 18:14

    Te entendo perfeitamente! Eu trabalhei na livraria da FNAC e vi coisas que muita gente duvida que realmente aconteceram. E o que vc falou de chegar cliente que pergunta “ahh, tô procurando um livro que não sei qual o nome do autor, nem o título, mas a capa é rosa” acontecem demais. Vc até tem a boa vontade de ajudar, mas se a pessoa não tem a menor noção do que quer, a gente não faz milagre.

    Percebi também que livraria é um lugar pra muita gente fazer a digestão depois do almoço ou da janta, pq eu nunca ouvi tanto peido quanto ouvi lá dentro. Assim como tinha cliente gente boa, a quantidade de malas por metro quadrado tentando parecer cult aumenta muito no final de ano.

    Eu recomendo que se alguém goste de livros, não trabalhe em livraria, trabalhe em biblioteca. Na livraria tem muito zé ruela, paga pouco e vc trabalha demais, inclusive em finais de semana e feriados. Eu fiquei dois anos na FNAC, parte na livraria, parte na revistaria e foram dois anos muito suados.

  14. Mayra 9 de junho de 2016
    às 03:40

    Oi Gabi, td bem? gostaria de saber se vc ja tinha experiência em vendas ou nao. Alem disso você mandou seu currículo or email ou foi ate a livraria? Obrigada