Laranja Mecânica, de Anthony Burgess

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No que consiste a liberdade? Esse tema atormentou filósofos ao longo dos séculos é: a liberdade seria uma mera expressão da vontade humana criadora de leis? Ou algo subjetivo, inerente à sua própria natureza, que paira sobre nossas cabeças como um direito natural ou o das zeit? Ou seria, em um pensamento mais pragmático, a objetivação do livre arbítrio? Não há respostas, só argumentos diversos que nos levam às mais variadas conclusões.

Você é livre para obedecer as leis e, também, para desobedecê-las. Você é livre para criar suas próprias leis. E assim por diante. A dimensão filosófica da acepção de liberdade é muito distante da acepção legal e é nisso que está a grande dificuldade, pois é preciso desenvolver o conceito.

Anthony Burgess

Anthony Burgess (25 Fev 1917 – 22 Nov 1993)

Adiei o começo desse texto por diversas vezes, pois o tema me assustava um pouco: a liberdade e o livre arbítrio são assuntos que trato na academia e não em um lugar como esse, destinado a assuntos menos indigestos. Pois, tomei coragem, respirei fundo e comecei!

Desculpem-me esse momento inicial, mas ele é fundamental para entender uma das obras mais importantes da literatura do século XX, Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, de 1962.

A obra se passa em qualquer lugar e em qualquer dia do século XX (palavras do próprio Burgess); qualquer cidade serve de cenário, em qualquer tempo. Podemos dizer que, para o autor, a sociedade em que ele estava inserido já era uma sociedade distópica, daquelas descritas por Orwell ou Huxley. O mundo estava podre em decorrência dos longos anos da segunda guerra e pela sombra de um mundo polarizado e perigoso.

Laranja Mecânica, de Anthony Burgess

Arte de Jeremy Haun

Alex, o personagem principal e narrador, é um típico adolescente da época – um maltchik – que, com seus colegas – druguis – aterrorizavam muito horrorshow. Burgess, em sua genialidade, criou um dialeto próprio de gírias para os jovens (coisa que assusta bastante quando se começa a ler o livro mas depois acostuma-se – ao final do livro, há um glossário para essas palavras). Alex é um delinquente juvenil, que diverte-se com a violência.

Seus passatempos são espancar desavisados que andam nas ruas à noite, assaltar, estuprar e brigar; eles amam a ultraviolência. Ele e seus druguis, Tosko, Pete e Georgie protagonizam verdadeiras cenas de barbárie – é a liberdade humana externalizada em sua forma mais pura; é o etat de nature descrito por Hobbes. A liberdade de ir e vir e ditada pela força e pela habilidade com a navalha e com a corrente. É uma liberdade total e irrestrita, que não vê nenhuma amarra na lei. E essa liberdade é boa?

Como consequência de seus atos, Alex, após ser traído por seus druguis, que passaram a contestar sua liderança, vai preso. E na cadeia é como um animal selvagem enjaulado, toda sua liberdade se esvai. Mas, em outra crítica à sua época, o autor nos mostra que, em muitas vezes, aquele jovem animal, mostrava-se completamente alienado. Fazia o que fazia só pelo prazer momentâneo que tais coisas despertam.

Laranja Mecânica, de Anthony Burgess

Em seu cárcere, ele, ansiando sair o mais rápido possível, admite entrar em um sistema “revolucionário” de recuperação de jovens delinquentes. O sistema consiste em tirar a liberdade da pessoa – não a liberdade legal, pois essa ele já não tinha. Tiraram dele a liberdade filosófica, seu livre arbítrio. Não vou descrever mais nada da trama que possa estragar o prazer da leitura, mas essa perda da liberdade é dramática.

Assim, ele não pode mais escolher entre ser bom ou ser mal. Ele só pode ser bom, pois qualquer desejo de violência, qualquer desejo de descumprir a lei, o leva a enjoos e a um grande mal estar. Dessa maneira, ele não tem mais a escolha entre o certo e o errado, o que caracteriza a liberdade.

Ele não pode mais desrespeitar, de forma consciente, a lei (nesse ponto, Thoreau teve um infarto e não pode mais prosseguir na leitura).

E agora? Ele está “curado” de todo o mal, de todos os instintos assassinos ou só não os revela em função do medo de passar muito mal? Aí, podemos entrar na discussão à respeito da função da punição: ela deve ser preventiva ou sancionadora? Deve causar medo ou somente punir um dano causado?

A trama fantástica e cheia de referências escondidas. Apesar do espanto inicial causado pelas palavras inventadas pelo autor, a leitura flui facilmente. É muito gostoso ler o livro!

Laranja Mecânica, de Anthony Burgess

Ah, não podemos deixar de narrar o fato de que Alex, apesar ser um jovem indolente e alienado, tem muita sensibilidade musical e estética. Afinal, ele é um amante da boa música, ama Beethoven, Bach e Mozart.

Toda a ultraviolência foi magistralmente retrada pelo cineasta Stanley Kubrick, em 1971. Falar sobre esse filme e suas cenas fantásticas, é ser redundante. Quem não viu tem a obrigação de ver e quem já viu, tem a obrigação de ver de novo, depois de uma boa leitura do livro, regado de muito moloko (leite). Uma observação legal a se fazer, é que o filme acaba em um momento diferente do mostrado no livro.

O livro é, originalmente, dividido em três partes, que poderíamos identificar como a queda, a danação e a redenção do personagem Alex. O filme vai somente até a segunda parte – mas não deixa de ser fodástico!

Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick

Set de filmagem de Laranja Mecânica

Uma das obras mais importantes do século XX, com uma crítica social mordaz e um tema de fundo que desperta discussões acirradas, é um livro obrigatório para se ter na estante e um DVD essencial para o conjunto.

O livro fez 50 anos em 2012 e ganhou uma edição muito boa da Editora Aleph, com ilustrações de Dave McKean (o cara que desenha Sandman), Oscar Grilo e Angeli, glossário e um artigo muito esclarecedor escrito pelo próprio Burgess, explicando sua criação.

Espero não ter passado dos limites dessa vez. Leiam tomando muito leite e escutando a 9ª Sinfonia de Beethoven no volume máximo!

A Vida Como Ela É, de Nelson Rodrigues

“A literatura está deplorável. Os humoristas, profundos. O mal da literatura brasileira é que nenhum escritor sabe bater um escanteio.”

Deixe de lado todos os preconceitos, dispa-se de toda a hipocrisia!

A Vida Como Ela É, de Nelson Rodrigues

(Nelson Rodrigues: 23 agosto 1912 – 21 dezembro 1980)

É com esse espírito, que você deve começar a ler A Vida Como Ela É do grande mestre Nelson Rodrigues. Conhecido como o “anjo negro”, Rodrigues descreve a vida cotidiana do brasileiro dos meados do século passado; mas sua narrativa crua e objetiva e sem qualquer traço de barreiras morais apresenta ao leitor aquilo que ele já sabe muito bem: o submundo dessa vida cotidiana, com suas infidelidades, amoralidades, monstruosidades, em suma, a vida!

O livro é a compilação de crônicas diárias publicadas originalmente no jornal Última Hora em sua coluna. E o que vemos é a sociedade sem qualquer máscara de moralidade: garotinhas que insistem em seduzir o namorado da irmã; mulheres infiéis que buscam seus amantes entre aqueles mais grossos e sujos estivadores do cais ou entre os passageiros de um ônibus e muitas outras histórias, que podem muito bem ter acontecido uma vez com você.

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Muitas das histórias ficaram tão célebres, que já compõe o imaginário popular brasileiro. Prefiro não comentar das crônicas em si, pois tiraria qualquer gosto do leitor de desvendar as páginas recheadas de surpresas.

Seus textos são um tiro na hipocrisia da família burguesa tradicional, pois mostra como todos são propensos às agruras da vida; sem contar que seu jeito de escrever é apaixonante, pois é simples e direto. São aulas de narrativa e construção de personagens de forma rápida e crua, mas de uma profundidade ímpar.

Rodrigues é um dos autores mais importantes do último século – jornalista, escreveu, além das crônicas, peças de teatro e romances e é pai de frases célebres e emblemáticas.

Várias das crônicas foram adaptadas magistralmente pele Rede Globo (passava no Fantástico lá nos idos anos 90) de forma a transpor para a telinha toda a atmosfera dos contos. Vale a pena procurar e assistir alguns.

O livro foi reeditado recentemente e em uma edição de bolso, bem em conta para as nossas carteiras. Aproveite a oportunidade e se delicie com as desventuras que poderiam ser protagonizadas por qualquer um. É para ser apreciado junto a uma caninha e ao som de Nelson Gonçalves, Dalva de Oliveira e outras pérolas dessa época.

Retire a máscara da hipocrisia e alimente a realidade.

O Processo, de Franz Kafka

É o absurdo da vida humana!

Um certo dia, ele viu-se detido sem saber o porque e sua vida foi arrastada por um turbilhão de emoções e situações surreais em um processo fantástico onde o acusado não sabe de que é acusado e nem como defender-se, onde funcionários são facilmente corruptíveis e o final já é sabido: a condenação! Assim pode ser descrito o romance de Franz Kafka intitulado O Processo.

O Processo, de Franz Kafka

Franz Kafka (3 julho 1883 – 3 junho 1924)

Josef K. é o acusado em um inquérito que segue em segredo, onde até mesmo quem detêm não sabe quais são as acusações; nem mesmo o juiz de instrução o sabe. O tribunal que o acusa – um misto de cortiço e tribunal – fica em um prédio decrépito nos confins da cidade; seus cartórios (onde os processos ficam guardados enquanto o julgador não lhe dá um fim com a sua decisão) ficam no sótão e tem um ar tão carregado que faz K. passar mal. Ele não sabe o porque e nem como se defender; é uma situação completamente absurda.

Como advogado, você se pergunta, quase gritando, “mas, do que ele é acusado?”, “cadê o ‘devido processo legal’?”, “e as garantias?”. Mas essas não são perguntas válidas para esse romance. Ele se pauta no absurdo. As situações mais inesperadas ocorrem.

K. busca ajudas das mais variadas formas – desde um advogado enfermo e que não sai da cama, despertando a sua desconfiança; ao pintor do tribunal, um homem atormentado que pinta os quadros dos juízes.

O Processo, de Franz Kafka

O processo que corre não é um processo comum, a defesa não sabe como atuar (pois não sabe qual é a acusação) e qualquer chance de escapatória se deve às relações com os funcionários do tribunal. Estes são descritos como crianças mimadas, que devem ser aduladas para não ficarem de “birra”.

Ele foi adaptado magistralmente por Orson Welles em 1962. O filme é quase ipsis literis do livro e leva para a telona toda a atmosfera do livro de forma fantástica. Para quem quiser ver, tem o filme completo no Youtube legendado!

O Processo, de Franz Kafka

Cena do filme O Processo, de Orson Welles

Depois de ler as suas páginas, andar pelos corredores do fórum ou do tribunal passaram a ser tarefas bem mais difíceis. Comecei a me sentir oprimido a cada passo, ao lembrar das situações surrealistas criadas pela mente de Kafka.

O livro só tem um pesar, é um presente de tia chata quando o sobrinho passa no vestibular de Direito (desculpem a piada!).

É uma obra fantástica! Que nos agarra e leva a outro mundo, nos arrasta à Praga e aos corredores infectos do tribunal – mas acaba sendo um choque de realidade. É um livro que deve ser lido e relido (e quem entende alemão, aventure-se na língua mãe).

Se você quer ser alguém interessante, leia!