No que consiste a liberdade? Esse tema atormentou filósofos ao longo dos séculos é: a liberdade seria uma mera expressão da vontade humana criadora de leis? Ou algo subjetivo, inerente à sua própria natureza, que paira sobre nossas cabeças como um direito natural ou o das zeit? Ou seria, em um pensamento mais pragmático, a objetivação do livre arbítrio? Não há respostas, só argumentos diversos que nos levam às mais variadas conclusões.
Você é livre para obedecer as leis e, também, para desobedecê-las. Você é livre para criar suas próprias leis. E assim por diante. A dimensão filosófica da acepção de liberdade é muito distante da acepção legal e é nisso que está a grande dificuldade, pois é preciso desenvolver o conceito.
Adiei o começo desse texto por diversas vezes, pois o tema me assustava um pouco: a liberdade e o livre arbítrio são assuntos que trato na academia e não em um lugar como esse, destinado a assuntos menos indigestos. Pois, tomei coragem, respirei fundo e comecei!
Desculpem-me esse momento inicial, mas ele é fundamental para entender uma das obras mais importantes da literatura do século XX, Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, de 1962.
A obra se passa em qualquer lugar e em qualquer dia do século XX (palavras do próprio Burgess); qualquer cidade serve de cenário, em qualquer tempo. Podemos dizer que, para o autor, a sociedade em que ele estava inserido já era uma sociedade distópica, daquelas descritas por Orwell ou Huxley. O mundo estava podre em decorrência dos longos anos da segunda guerra e pela sombra de um mundo polarizado e perigoso.
Alex, o personagem principal e narrador, é um típico adolescente da época – um maltchik – que, com seus colegas – druguis – aterrorizavam muito horrorshow. Burgess, em sua genialidade, criou um dialeto próprio de gírias para os jovens (coisa que assusta bastante quando se começa a ler o livro mas depois acostuma-se – ao final do livro, há um glossário para essas palavras). Alex é um delinquente juvenil, que diverte-se com a violência.
Seus passatempos são espancar desavisados que andam nas ruas à noite, assaltar, estuprar e brigar; eles amam a ultraviolência. Ele e seus druguis, Tosko, Pete e Georgie protagonizam verdadeiras cenas de barbárie – é a liberdade humana externalizada em sua forma mais pura; é o etat de nature descrito por Hobbes. A liberdade de ir e vir e ditada pela força e pela habilidade com a navalha e com a corrente. É uma liberdade total e irrestrita, que não vê nenhuma amarra na lei. E essa liberdade é boa?
Como consequência de seus atos, Alex, após ser traído por seus druguis, que passaram a contestar sua liderança, vai preso. E na cadeia é como um animal selvagem enjaulado, toda sua liberdade se esvai. Mas, em outra crítica à sua época, o autor nos mostra que, em muitas vezes, aquele jovem animal, mostrava-se completamente alienado. Fazia o que fazia só pelo prazer momentâneo que tais coisas despertam.
Em seu cárcere, ele, ansiando sair o mais rápido possível, admite entrar em um sistema “revolucionário” de recuperação de jovens delinquentes. O sistema consiste em tirar a liberdade da pessoa – não a liberdade legal, pois essa ele já não tinha. Tiraram dele a liberdade filosófica, seu livre arbítrio. Não vou descrever mais nada da trama que possa estragar o prazer da leitura, mas essa perda da liberdade é dramática.
Assim, ele não pode mais escolher entre ser bom ou ser mal. Ele só pode ser bom, pois qualquer desejo de violência, qualquer desejo de descumprir a lei, o leva a enjoos e a um grande mal estar. Dessa maneira, ele não tem mais a escolha entre o certo e o errado, o que caracteriza a liberdade.
Ele não pode mais desrespeitar, de forma consciente, a lei (nesse ponto, Thoreau teve um infarto e não pode mais prosseguir na leitura).
E agora? Ele está “curado” de todo o mal, de todos os instintos assassinos ou só não os revela em função do medo de passar muito mal? Aí, podemos entrar na discussão à respeito da função da punição: ela deve ser preventiva ou sancionadora? Deve causar medo ou somente punir um dano causado?
A trama fantástica e cheia de referências escondidas. Apesar do espanto inicial causado pelas palavras inventadas pelo autor, a leitura flui facilmente. É muito gostoso ler o livro!
Ah, não podemos deixar de narrar o fato de que Alex, apesar ser um jovem indolente e alienado, tem muita sensibilidade musical e estética. Afinal, ele é um amante da boa música, ama Beethoven, Bach e Mozart.
Toda a ultraviolência foi magistralmente retrada pelo cineasta Stanley Kubrick, em 1971. Falar sobre esse filme e suas cenas fantásticas, é ser redundante. Quem não viu tem a obrigação de ver e quem já viu, tem a obrigação de ver de novo, depois de uma boa leitura do livro, regado de muito moloko (leite). Uma observação legal a se fazer, é que o filme acaba em um momento diferente do mostrado no livro.
O livro é, originalmente, dividido em três partes, que poderíamos identificar como a queda, a danação e a redenção do personagem Alex. O filme vai somente até a segunda parte – mas não deixa de ser fodástico!
Uma das obras mais importantes do século XX, com uma crítica social mordaz e um tema de fundo que desperta discussões acirradas, é um livro obrigatório para se ter na estante e um DVD essencial para o conjunto.
O livro fez 50 anos em 2012 e ganhou uma edição muito boa da Editora Aleph, com ilustrações de Dave McKean (o cara que desenha Sandman), Oscar Grilo e Angeli, glossário e um artigo muito esclarecedor escrito pelo próprio Burgess, explicando sua criação.
Espero não ter passado dos limites dessa vez. Leiam tomando muito leite e escutando a 9ª Sinfonia de Beethoven no volume máximo!


















Tem 23 anos, é aquariana e idealizadora do blog. Uma amapaense que mora em Belo Horizonte e está fazendo intercâmbio em Lisboa. Vive em constante mudança: de casa e de visual. Adora viajar, ler e descobrir coisas novas. É entusiasta da moda e da fotografia. 





























