As livrarias mais lindas do mundo
As livrarias mais lindas do mundo

1. Selexyz Bookstore, Maastricht, Holanda; 2. The Bookàbar Bookshop, Roma, Itália; 3. Plural Bookshop, Bratislava, Eslováquia; 4. Livraria Lello, Porto, Portugal; 5. Cook & Book, Bruxelas, Bélgica; 6. Livraria da Vila, São Paulo, Brasil; 7. Shakespeare & CO., Paris, França; 8. Librería El Ateneo Grand Splendid, Buenos Aires, Argentina.

Eu confesso que, até nas viagens que tenho feito pelas cidades afora, sou uma rata de livraria. É sério, acho que meu problema é patológico! Não posso ver uma livraria dando sopa que logo quero entrar, sentir o cheiro dos livros, curtir o ambiente e folhear várias páginas.

Selecionei as 8 mais fofas desse post que encontrei e, aquelas que ainda não fui, estão na minha listinha para visitar futuramente. Daquelas que citei acima, já coloquei os pézinhos na Livraria Lello (no Porto), na Livraria da Vila (em São Paulo) e na Shakespeare & Company (em Paris). As outras ainda ficarei devendo!

Quem me segue no Instagram, acompanha minhas reações eufóricas ao entrar numa livraria bonita. E o mais legal é que todo mundo também compartilha da paixão. :)

As livrarias mais lindas do mundo

1. Livraria Saraiva do Village Mall, Rio de Janeiro; 2. Livraria Ler Devagar, Lisboa; 3. Livraria Shakespeare & CO., Paris; 4. Livraria Cultura do Conjunto Nacional, São Paulo.

Essas quatro livrarias me marcaram muito. Todas com suas particularidades, em lugares bem diferentes entre si. No Village Mall, a única loja que eu posso comprar é a Saraiva, hahah. Mas olha, nem reclamo, viu? A primeira vez que fui lá, saí uma centena de reais mais pobre – mas muito mais feliz. A loja é incrível, bem grande e com uma decoração de babar. Quero organizar meus livros por cor daqui pra frente. :)

A Livraria Cultura do Conjunto Nacional me deixou perdida. Como conhecer onde está cada livro ali dentro, minha gente? Queria fuçar cada estante, cada lombada… mas é uma tarefa impossível, mesmo que você vá todos os dias por lá. Fiquei encantada com o ambiente descontraído!

A Ler Devagar fica em um local super fofo (que ainda irei falar aqui no blog) chamado Lx Factory – que tem lojas de decoração, chocolateria, sorveteria, pizzaria, lojas de usados, lojas de presentinhos… Os livros vão até quaaaase no teto e o ciclista flutuando pela livraria é a coisa mais fofa! Para ver direito como ela é, clique aqui.

Mas a que mais me marcou, com certeza foi a Shakespeare & Company, em Paris. Não teria como ser diferente, né? É um nome de peso! Apesar de não ser a mesma aberta por Sylvia Beach, ainda vale muito a pena, pois ela foi construída nos moldes da primeira. A livraria é bem apertadinha, mas muito aconchegante. Dá vontade de pegar um livro, sentar na poltrona e não sair nunca mais. De souvenir, trouxe pra casa o Dubliners (Joyce) e The Last Tycoon (Fitzgerald), ambos em inglês mesmo.

Bom, essas quatro foram, para mim, as mais lindas livrarias do mundo (por enquanto!). Quais são as livrarias preferidas de vocês?

Eu Receberia as Piores Notícias dos seus lindos Lábios

Alguém poderia escrever um manual sobre como se deve reagir a esse tipo de notícia, se as circunstâncias não forem favoráveis ao casal. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. Seria bastante útil para homens como eu. (p. 183)

Eu Receberia as Piores Notícias dos seus lindos Lábios

Descobri recentemente que adoro histórias de amor. Mas não é qualquer uma, não! Prefiro aquelas arrebatadoras, que tiram, aos poucos, pedacinhos dos amantes, para que estes precisem ter o trabalho de catá-los depois. Gosto daqueles romances tórridos, onde rolam suor, sangue e gozo, onde os personagens têm problemas e se deixam levar pelas emoções sem pensar no amanhã.

Descobri isso há algumas semanas, depois de ler Eu Receberia as Piores Notícias de seus lindos Lábios, do escritor brasileiro Marçal Aquino. Um livro que vale, e muito, um destaque na literatura nacional.

Cauby é fotógrafo e a personagem principal do livro. Ele é de São Paulo, mas se muda para o interior do Pará por conta de um trabalho. Lá, ele conhece a bela Lavínia, uma mulher deslumbrante que exala sensualidade e destruição. Ela é casada com o pastor Ernani, um homem santo, tão importante na história quanto o casal.

O livro se desenrola com oscilações entre o presente e o passado, em um momento curto de uma noite, enquanto Cauby escuta um homem relatar sobre um amor que tomou conta de sua vida. Nesse momento, percebemos o quão vulneráveis somos perante um sentimento tão complexo e incerto. Até tentamos nos identificar com a história, pois, quando nos referimos ao amor, todos temos algo de trágico para contar.

Acontece em uma cidade pequena no Pará, onde mineradoras e garimpeiros sentem sede do ouro. Onde impera a lei do mais forte e qualquer balbucio é percebido a quilômetros de distância. Uma cidade tensa que, a qualquer momento, pode se desmoronar completamente. Nesse contexto, o amor entre Cauby e Lavínia ajuda a colocar mais lenha ainda na fogueira.

A narrativa de Marçal é crua, dura e, muitas vezes, cruel. O passado de Lavínia é de uma realidade sem tamanho e que toma uma boa parte do livro. Uma história sofrida e triste como a dela não teria como não deixar sequelas. Ao mesmo tempo que tentamos entendê-la, sentimos pena. E, por incrível que pareça, conseguimos nos identificar, mesmo que só um pouquinho.

Mas as partes que eu mais gostava (também) era ler sobre os ensinamentos do tal professor Schianberg, um fictício filósofo do amor. Cauby sempre menciona partes de seu livro nas suas divagações e eu quase caí na dele (precisei procurar no Google para saber se ele realmente existia, hahah).

De acordo com o professor Schianberg (op. cit), não é possível determinar o momento exato em que uma pessoa se apaixona. Se fosse, ele afirma, bastaria um termômetro para comprovar sua teoria de que, neste instante, a temperatura corporal se eleva vários graus. Uma febre, nossa única sequela divina. Schiamberg diz mais: ao se apaixonar, um ¨homem de sangue quente¨ experimenta o desamparo de sentir-se vulnerável. Ele não caçou; foi caçado. (p.15)

Acho que demorei dois dias para ler o livro – aliás, devorar. Ele me marcou muito pela sua forma escrita, pelo enredo e pela história arrebatadora de amor que o autor nos apresenta. Ao terminar, entrei num momento de transe. Precisei passar um tempo sozinha para digerir todas aquelas informações. Adoro quando um livro faz isso comigo. Tinha saudade de sentir isso. A última vez foi com O Grande Gatsby, outra história de amor contrariado.

Para quem quiser, há o filme feito por Beto Brant, com a Camila Pitanga no papel de Lavínia. Ainda não vi, vocês já?

Laranja Mecânica, de Anthony Burgess

laranja-mecanica

No que consiste a liberdade? Esse tema atormentou filósofos ao longo dos séculos é: a liberdade seria uma mera expressão da vontade humana criadora de leis? Ou algo subjetivo, inerente à sua própria natureza, que paira sobre nossas cabeças como um direito natural ou o das zeit? Ou seria, em um pensamento mais pragmático, a objetivação do livre arbítrio? Não há respostas, só argumentos diversos que nos levam às mais variadas conclusões.

Você é livre para obedecer as leis e, também, para desobedecê-las. Você é livre para criar suas próprias leis. E assim por diante. A dimensão filosófica da acepção de liberdade é muito distante da acepção legal e é nisso que está a grande dificuldade, pois é preciso desenvolver o conceito.

Anthony Burgess

Anthony Burgess (25 Fev 1917 – 22 Nov 1993)

Adiei o começo desse texto por diversas vezes, pois o tema me assustava um pouco: a liberdade e o livre arbítrio são assuntos que trato na academia e não em um lugar como esse, destinado a assuntos menos indigestos. Pois, tomei coragem, respirei fundo e comecei!

Desculpem-me esse momento inicial, mas ele é fundamental para entender uma das obras mais importantes da literatura do século XX, Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, de 1962.

A obra se passa em qualquer lugar e em qualquer dia do século XX (palavras do próprio Burgess); qualquer cidade serve de cenário, em qualquer tempo. Podemos dizer que, para o autor, a sociedade em que ele estava inserido já era uma sociedade distópica, daquelas descritas por Orwell ou Huxley. O mundo estava podre em decorrência dos longos anos da segunda guerra e pela sombra de um mundo polarizado e perigoso.

Laranja Mecânica, de Anthony Burgess

Arte de Jeremy Haun

Alex, o personagem principal e narrador, é um típico adolescente da época – um maltchik – que, com seus colegas – druguis – aterrorizavam muito horrorshow. Burgess, em sua genialidade, criou um dialeto próprio de gírias para os jovens (coisa que assusta bastante quando se começa a ler o livro mas depois acostuma-se – ao final do livro, há um glossário para essas palavras). Alex é um delinquente juvenil, que diverte-se com a violência.

Seus passatempos são espancar desavisados que andam nas ruas à noite, assaltar, estuprar e brigar; eles amam a ultraviolência. Ele e seus druguis, Tosko, Pete e Georgie protagonizam verdadeiras cenas de barbárie – é a liberdade humana externalizada em sua forma mais pura; é o etat de nature descrito por Hobbes. A liberdade de ir e vir e ditada pela força e pela habilidade com a navalha e com a corrente. É uma liberdade total e irrestrita, que não vê nenhuma amarra na lei. E essa liberdade é boa?

Como consequência de seus atos, Alex, após ser traído por seus druguis, que passaram a contestar sua liderança, vai preso. E na cadeia é como um animal selvagem enjaulado, toda sua liberdade se esvai. Mas, em outra crítica à sua época, o autor nos mostra que, em muitas vezes, aquele jovem animal, mostrava-se completamente alienado. Fazia o que fazia só pelo prazer momentâneo que tais coisas despertam.

Laranja Mecânica, de Anthony Burgess

Em seu cárcere, ele, ansiando sair o mais rápido possível, admite entrar em um sistema “revolucionário” de recuperação de jovens delinquentes. O sistema consiste em tirar a liberdade da pessoa – não a liberdade legal, pois essa ele já não tinha. Tiraram dele a liberdade filosófica, seu livre arbítrio. Não vou descrever mais nada da trama que possa estragar o prazer da leitura, mas essa perda da liberdade é dramática.

Assim, ele não pode mais escolher entre ser bom ou ser mal. Ele só pode ser bom, pois qualquer desejo de violência, qualquer desejo de descumprir a lei, o leva a enjoos e a um grande mal estar. Dessa maneira, ele não tem mais a escolha entre o certo e o errado, o que caracteriza a liberdade.

Ele não pode mais desrespeitar, de forma consciente, a lei (nesse ponto, Thoreau teve um infarto e não pode mais prosseguir na leitura).

E agora? Ele está “curado” de todo o mal, de todos os instintos assassinos ou só não os revela em função do medo de passar muito mal? Aí, podemos entrar na discussão à respeito da função da punição: ela deve ser preventiva ou sancionadora? Deve causar medo ou somente punir um dano causado?

A trama fantástica e cheia de referências escondidas. Apesar do espanto inicial causado pelas palavras inventadas pelo autor, a leitura flui facilmente. É muito gostoso ler o livro!

Laranja Mecânica, de Anthony Burgess

Ah, não podemos deixar de narrar o fato de que Alex, apesar ser um jovem indolente e alienado, tem muita sensibilidade musical e estética. Afinal, ele é um amante da boa música, ama Beethoven, Bach e Mozart.

Toda a ultraviolência foi magistralmente retrada pelo cineasta Stanley Kubrick, em 1971. Falar sobre esse filme e suas cenas fantásticas, é ser redundante. Quem não viu tem a obrigação de ver e quem já viu, tem a obrigação de ver de novo, depois de uma boa leitura do livro, regado de muito moloko (leite). Uma observação legal a se fazer, é que o filme acaba em um momento diferente do mostrado no livro.

O livro é, originalmente, dividido em três partes, que poderíamos identificar como a queda, a danação e a redenção do personagem Alex. O filme vai somente até a segunda parte – mas não deixa de ser fodástico!

Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick

Set de filmagem de Laranja Mecânica

Uma das obras mais importantes do século XX, com uma crítica social mordaz e um tema de fundo que desperta discussões acirradas, é um livro obrigatório para se ter na estante e um DVD essencial para o conjunto.

O livro fez 50 anos em 2012 e ganhou uma edição muito boa da Editora Aleph, com ilustrações de Dave McKean (o cara que desenha Sandman), Oscar Grilo e Angeli, glossário e um artigo muito esclarecedor escrito pelo próprio Burgess, explicando sua criação.

Espero não ter passado dos limites dessa vez. Leiam tomando muito leite e escutando a 9ª Sinfonia de Beethoven no volume máximo!