RanXerox

Now I wanna sniff some glue
Now I wanna have somethin’ to do
All the kids wanna sniff some glue
All the kids want somethin’ to do
– Ramones

RanXerox

O mundo estava em crise, não havia esperança. Essa premissa niilista foi o dogma de certos grupos na década de 70 e 80. Punks, junks e doidos de toda a espécie – é a contracultura, que encantou os jovens nessa época.

Na Europa e nos EUA, garotos andavam com roupas rasgadas, cabelos arrepiados, escutando música alta e barulhenta e buscavam a felicidade em uma seringa. Nesse mundo alucinado, três quadrinhistas italianos surtados criaram um ícone para gerações, que representava aquele estilo de ser.

Ranxerox é fruto da imaginação psicótica e drogada de Tamburini, Liberatore e Chabat e foi publicado pela primeira vez em 1978. O personagem é icônico; é um androide drogado e apaixonado por Lubna, uma garota de 12 anos e viciada em heroína.

Recentemente ele ganhou uma reedição de luxo por aqui, pela editora Conrad, que compila todas as suas histórias chapadas em um álbum muito bom (vale dizer que a edição está bem barata)!

Em uma Roma futurística, Ranxerox envolve-se nas piores confusões em busca de drogas e sexo, sem às voltas com Lubna. Ele nasceu de uma revolução nas ruas sujas dos anos 70 e 80 e provocou outra revolução, na cultura pop. Esta nunca mais foi a mesma após os roteiros  anárquicos e fantásticos de Tamburini e dos traços hiperrrealistas e cores gritantes de Liberatore.

RanXerox

O personagem foi montado por um “estudelinquente” a partir de uma máquina de Xerox e outras traquitanas e é viciado em cola “cascolar”; Lubna, sua paixão de 12 anos, é ninfomaníaca e completamente viciada. Para completar o quadro, as histórias são surtadas, cheias de violência e sexo – tanto, que pode-se fazer um paralelo com o Laranja Mecânica e outras obras da época, que também traziam em seu bojo o niilismo da pós modernidade; violência gratuita, sexo e muitas drogas.

Não sei se é possível fazer qualquer resenha das histórias em si, pois elas são sequências malucas, que se superpõe em ação, violência e insanidade. Mas, de tal maneira, que esse surto psicótico que é essa revista, torna-se impossível de não ler.

Essa é para quem gosta de muita loucura, punk rock no talo e boas histórias em quadrinhos. O personagem é um clássico da contracultura da década de 80 aqui no Brasil; foi publicada na saudosa revista Animal e deu forma a uma geração.

É para ler escutando The Clash, Sex Pistols e Ramones!

The Walking Dead, de Robert Kirkman

Tenho que confessar, me rendi à moda! Me rendi à HQ The Walking Dead, de Robert Kirkman. A série, recentemente transportada para as telinhas em um seriado homônimo, tem feito muito sucesso a atraído cada vez mais curiosos para a febre dos zumbis.

The Walking Dead, de Robert Kirkman

Seja na TV, seja na HQ, a premissa é a mesma, acompanhamos o policial Rick Grimes em sua jornada em busca de sobrevivência. Após uma sequencia inicial alucinante, onde Grimes e seu Shane encurralam um bandido e, em uma troca de tiros, Grimes é atingido e fica em coma. Ao acordar – da mesma forma que no episódio piloto do clássico de Além da imaginação, intitulado “Where Is Everybody?”, o personagem central acorda de seu sono misterioso e se vê sozinho em um mundo estranho, habitado por manequins – Grimes acorda de um coma de um mês em um hospital vazio, com sinal de abandono e estragos, em um mundo habitado por criaturas piores que manequins, habitado por zumbis.

The Walking Dead, de Robert Kirkman

Seu primeiro impulso e procurar os seus; sua mulher e filho. Vários zumbis mortos e, enfim, por obra do acaso, encontra a família e um pequeno grupo de sobreviventes – cada um com seus demônios interiores; angústias; sua personalidade.

Daí, em fugas alucinadas e lutas contra os zumbis, a história gira em torno da sobrevivência do grupo e do próprio grupo. A narrativa concentra-se nas relações e dramas do grupo e em sua coesão e na progressiva loucura coletiva que vai lhes consumindo. É o apocalipse – um verdadeiro estado de natureza, onde o homem tem que fazer aquilo que for necessário para proteger os seus.

The Walking Dead, de Robert Kirkman

Conhecia a série, que passa no Canal Fox às terças e já está na 3ª temporada; e mesmo assim, só havia visto episódios esparsos, apesar de estar por dentro das notícias do meio. Só que quando a HQ parou em minhas mão foi amor à primeira vista – posso falar com segurança que é uma das melhores HQ’s que já li.

Coesa e bem construída, a narrativa nos prende e cria um ambiente de tensão perpétua que nos faz avançar pelas páginas quase sem respirar. Li só os primeiros volumes, mas percebe-se que a qualidade não vai cair tão cedo.

Essa é para quem gosta de zumbis, tripas e drama humano! ;]

Dora, de Ignácio Minaverry

Dora, de Ignácio Minaverry

Com o fim da Segunda Guerra, a Alemanha foi ocupada pelos países aliados e iniciou-se um programa político ideológico de desmantelação da máquina estatal nazista. Começou-se, assim, uma caça às bruxas aos agentes do eixo. Muitos deles foram presos e julgados pelo tribunal de exceção de Nuremberg. Mas algumas pessoas conseguiram fugir e escapar à punição; muitos deles encontraram guarita na América do Sul, mais precisamente na Argentina peronista.

Eichmann e Mengele são bons exemplos disso – fugiram após a guerra e conseguiram vivem com uma relativa tranqüilidade. Eichmann foi capturado pelo serviço secreto israelense e levado ao recém criado estado de Israel para um controvertido julgamento, já Mengele nunca foi achado e, reza a lenda, que ele se refugiou no Brasil. Por que estou falando sobre isso? Esse é o plano de fundo da melhor graphic novel que li nesse ano: Dora, do argentino Ignácio Minaverry.

Dora, de Ignácio Minaverry

A trama acompanha Dora Bardavid, uma alemãzinha judia de cabelos curtos e muita personalidade, em sua descoberta enquanto pessoa, mulher e cidadã do mundo. Ela trabalha no Berlin Document Center como arquivista – traduzia, para os americanos, todos os documentos capturados dos nazistas durante a guerra; naturalmente, em suas mãos passaram muitos documentos secretos à respeito da Endlösung (solução final nazista); ela vai descobrindo toda a máquina burocrática alemã que estava por trás do extermínio dos judeus. Essa é uma trama quase secundária no desenvolvimento da história. O mais importante é a autodescoberta e autoafirmação da própria personagem.

A história desenvolve-se muito bem, em uma trama que mistura espionagem e caça a ex-nazistas ao crescimento de uma jovem em um mundo que foi devastado. Acompanhamos Dora em seu desenvolvimento sexual e emocional e seu envolvimento com o movimento sionista, que buscava encontrar informações de criminosos de guerra e caçá-los. De Berlim, ela vai para o subúrbio de Paris e de lá, para a Argentina, em uma viagem de autoconhecimento.

Dora, de Ignácio Minaverry

As ilustrações são fantásticas – muitas vezes reproduções de fotos históricas dos lugares visitados. Nesse sentido, sua estada na França é muito bacana, pois mostra os cenários futuristas criados pelos arquitetos da época, em condomínios modelo nos subúrbios de Paris. Detalhe para os cenários cinquentistas que pulam das páginas de quadrinho em quadrinho.

É uma história que emociona em sua simplicidade narrativa e na complexidade do plano de fundo. Essa é para quem gosta de quadrinhos e para quem quer conhecer novas coisas. A HQ está a venda nas principais livrarias do país!