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Crime e Castigo – Volume I

Há alguns meses, me propus um desafio. Começar a ler livros mais difíceis, densos e extensos. Confesso que, às vezes, sou bastante medrosa de engatar em uma leitura assim e ela acabar sem incentivos para continuar. Ainda preciso de mais disciplina, porque o principal momento que leio meus livros é na viagem de ida e volta da faculdade, e aí deixo o livro de lado. Até consigo ler antes de dormir, mas preciso não estar tão cansada para ler mais de 10 páginas – o que tem sido bem difícil.

Bem, toda essa introdução para dizer que terminei o volume I de Crime e Castigo e já quero falar dele antes de terminar o volume II. Não é uma leitura fácil e, com todos esses “empecilhos” do parágrafo anterior, demorei mais do que gostaria. Vejo muita gente falando que consegue terminar de ler um desses num final de semana. Parabéns! :) Já que não estamos em nenhuma competição, vou levando o meu ritmo mesmo. Flw. Vlw.

Terminada essa primeira parte, posso fazer algumas considerações sobre o modo de escrita de Dostoiévski. Sabe aquele tipo de autor que adora descrever os mínimos detalhes de uma cena e demora looongas páginas para isso? Pois é, esse não é Dostoiévski. Ele se preocupa muito mais com seus diálogos do que com a descrição de personagens. Ele é mestre não em falar, mas em mostrar como são as pessoas do livro com suas próprias atitudes e opiniões. Talvez por isso que ele seja considerado um profundo conhecedor da alma humana.

Essa obra é tão incrível que a minha impressão é que tudo isso estava acontecendo e o autor estava só registrando em um livro. É tudo muito real. Acho que não tenho nem cacife para falar sobre uma obra dessas (mas já que comecei, né…).

O enredo gira em torno de Ródion Románovitch Raskólnikov, um jovem ex-estudante que mora em São Petersburgo na maior miséria. A sua casa é só um quartinho alugado, com uma mesa e um sofá, que o serve de cama. Sufocado pela pobreza e com uma raiva descontrolada de uma velha que lhe paga pouquíssimo pelos bens que penhora, Ródia a mata com machadadas na cabeça. Após o crime, ele começa a sofrer uma loucura atormentada pelo ato.

Os sonhos de um homem doente tomam, sempre, um relevo extraordinário a ponto de a própria realidade confundir-se com eles. (p. 80)

Não é a inteligência que me ajuda, mas o demônio. (p. 105)

Torturo-me e me dilacero, eu mesmo… Sou incapaz de me controlar. Ontem, anteontem, todos esses dias não faço outra coisa senão me martirizar… Quando estiver são, não o farei mais… Se, porém, não sarar nunca? Senhor, como estou cansado disso tudo. (p. 154)

O livro também possui outros acontecimentos nesse meio-tempo, como a ajuda de Ródia à família de um senhor atropelado e a vinda de sua mãe e irmã para São Petersburgo. Durante algumas boas páginas, conseguimos transferir a nossa atenção para outros casos, quase esquecendo do crime cometido.

Por incrível que pareça, encontrei alguns traços da obra que podem ter inspirado o livro Clube da Luta. O personagem principal também é um tanto inspirado pela filosofia niilista. Inconsequente, matou porque… bom, por matar. Sem nenhum motivo aparente. Afinal, ele não ficou com nada de valor para melhorar suas condições de vida. Em um dado momento, Ródia diz que, o que ele matou de verdade foi um princípio, olha só:

A velha não significa nada, dizia a si mesmo, ardente, impetuosamente. É talvez um erro, mas não se trata dela. A velha foi senão um acidente… eu queria dar um pulo depressa. Não matei um ser humano, mas um princípio. (p. 368)

Enfim, apesar de não ser grego, ele tem sido quase uma odisseia para mim. Não pelo livro ser ruim – é justamente o contrário. É preciso ter bastante atenção para captar as nuances da complexidade dos personagens e conectar os pontos. Ah! Quero aproveitar também para dar um conselho para quem for ler: anotem os nomes dos personagens e coloquem uma mini bio de quem ele é. É muito nome complicado para um livro só, hahaha. Eu me confundo toda e acabo nem lembrando quem é quem. Fica aí a dica para os atrapalhados como eu!

Bom, assim que terminar o volume II de Crime e Castigo, volto para falar um pouco mais. :)

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25 comentários

  1. barbara 24 de agosto de 2014
    às 12:36

    ler “crime e castigo” foi das melhores coisas que fiz na minha vida. é impressionante que, mesmo sendo um livro gigante e que os personagens tenham variações de nomes por causa dos apelidos em russo, eu me sentia em suspensão de ansiedade para saber o que acontecia com o ródia. eu li quando estava no colégio, então às vezes ficava desenhando sonietchka nas bordas das folhas de fichário.

    (um filme que dialoga MUITO com esse livro é o “match point”, do woody allen; eu morro de preguiça dos filmes dele, mas esse foi bem impactante pra mim por causa da associação que rola com o livro mesmo)

    1. Gabi 24 de agosto de 2014
      às 21:55

      Faz tanto tempo que assisti Match Point que nem lembro dessa referência, acredita, Barbara? Valeu pela dica, vou assistir novamente com outros olhos agora. :D

  2. Pablo 24 de agosto de 2014
    às 12:36

    Sou louco pra ler obras mais complexas, mas ando muito relaxado com minhas leituras… acabei inserindo em minha rotina outras coisas que me impedem de ler!
    Achei esse bem interessante, mas acho que eu também me perderia nos nomes! Hahaha!
    ;*

  3. gabi 24 de agosto de 2014
    às 18:02

    Sei bem o que vc quer dizer, gabi. To lendo “os miseraveis” ha duas semanas e ainda nem passei da metade haha. A leitura as vezes eh bem detalhada e requer uma atencao que eu so consigo ter quando to em casa, e assim como vc, eu leio bastante em onibus, o que acaba complicando. Por falar nisso, vc ja leu os miseraveis?
    Bj grande!

    1. Gabi 24 de agosto de 2014
      às 21:51

      Oi, Gabi! Ele é um dos meus objetivos de leitura, hahaha. Ainda não li, mas morro de vontade. E sei que ele é enorme e que terei de me preparar tanto quanto Crime e Castigo. Mas faz parte, né? A gente tem que se desafiar também na leitura. Pouca coisa é tão enriquecedora quanto. ^_^

      Beijão :*

  4. Lid Matos 24 de agosto de 2014
    às 20:19

    ficou muito boa a sua resenha. Já venho me preparando para começar a ler coisas mais complexas, mas acho que ainda não estou pronta. Quero ler Crime Castigo, mas acho que devo começar com algo mais leve dos complexos, se você me entende hahahaha Mas com certeza lerei!

    http://www.prefirobsides.com.br/

    1. Gabi 24 de agosto de 2014
      às 21:52

      Lid, tenta começar por outros livros do Dostoiévski. Eu gostei bastante de Noites Brancas e ele já te dá uma ideia de como é a narrativa do autor. :)

  5. Bianca Moraes 24 de agosto de 2014
    às 20:41

    Poxa, deu vontade de ler também! Gosto muito de personagens bem construídos! A sua narração me lembrou “O Estrangeiro”, do Albert Camus. Também rola um assassinato só porque mesmo (não foi spoiler! Tá na sinopse na orelha do livro! :P). E a esse ponto da história a gente já conhece tão bem o personagem que a gente simplesmente entende os motivos dele.

    Não sei se você já leu, mas quero deicar minha indicação aqui: leiaaaaaaaaa pelamordedeus, a Trilogia Millennium, do Stieg Larsson! São livros grandes e com a temática bem pesada (acho que os três falam de formas diferentes sobre abuso sexual, tráfico de mulheres, violência contra a mulher). O cara escreve MUITO BEM!!! E são daqueles livros que não dá pra largar. Esse eu indico de olhos fechados mesmo! E o bom é que apesar de serem três livros grandes, eles são tão viciantes que a gente não consegue largar. Termina que não demoramos tanto para ler e aí aumenta a nossa auto estima literária! Hihihi
    E os três livros têm personagens simplesmente apaixonantes! Assim: demais!

    ;**

    1. Gabi 24 de agosto de 2014
      às 21:54

      Nossa, Bianca, é mesmo! Li “O Estrangeiro” também e você tem razão!

      Um milhão de pessoas já me indicaram Millennium, você acredita? Ando adiando pelo tanto que as pessoas falam, hahahaha (é, eu sou meio louca). Mas vou ler sim! Tô curiosa! :D

  6. marina 24 de agosto de 2014
    às 22:57

    Encarar “Crime e Castigo” assim, logo de cara não tá fácil. Tô começando com os clássicos estrangeiros agora (até então era mais familiarizada com os brasileiros), lendo “Admirável mundo novo” que, se Deeeeeus quiser, essa semana eu termino, rs. Já estou me preparando para outros clássicos, mas desses imensos, o que mais tenho vontade de ler é “Os miseráveis”. Bom, um passo de cada vez né? <3

    Obs: A resenha ficou ótima, mas não sei porque Crime e Castigo ainda não conseguiu me empolgar! Quem sabe mais pra frente rs

  7. Deborah 25 de agosto de 2014
    às 00:53

    Nossa, Gabi, que legal. Eu morro de vontade de ler Dostoyevski, mas bate uma preguiça e um medo, sabe? Tenho meio que medo de ler autores novos e não gostar e, como você, ando tão cansada que nem consigo ler o livro de contos de fantasia com que estou lutando ultimamente. Acho bobagem competir pra quem lê mais livros em menos tempo também, o importante é ler alguma coisa, nem que seja blog, haha. Mas gostei tanto do seu post que vou ler O Idiota que tenho aqui em ebook :)

    Beijo!

    1. Gabi 25 de agosto de 2014
      às 23:30

      Deborah, acho importante ter a experiência de ler autores tão importantes para o mundo literário quanto o Dostoiévski, mas é aquela coisa, né, não adianta se forçar. A vontade tem que surgir naturalmente, senão, não dá certo mesmo. Começa devagar, sem muita cobrança. Aposto que a leitura vai ser bem mais leve. :)

  8. Aline 25 de agosto de 2014
    às 04:00

    A primeira vez que tentei ler Crime e Castigo foi quando eu tinha apenas 15 anos. Obviamente desisti de ler 10 páginas depois. Mas eu pretendo ler em breve. Estou no desafio “30 coisas antes dos 30″e um dos itens é ler 50 livros até lá. Ainda tenho um ano e meio pra completar a missão. Quando terminar a leitura atual (Kafka na Praia, do Haruki Murakami), estou em dúvida se começo Crime e Castigo ou se me aventuro em ler Em Busca do Tempo Perdido. Esse último está me perseguindo. Além dos vídeos da Tatiana Feltrin, já tive duas leituras esse semestre em que essa coleção é abordada (1Q89, do Haruki Murakami e A Terra Inteira e o Céu Infinito, da Ruth Ozeki).
    Adorei a dica de anotar os nomes. deveria ter feito algo parecido quando li O Silmarillion, do Tolkien.

    1. Gabi 25 de agosto de 2014
      às 23:32

      Fiquei curiosíssima pela “saga” do Proust depois que a Tatiana falou dele também, Aline! Mas ainda vou esperar um tempo para ler, porque têm muuuuitos livros ainda na fila, hahaha. :) Já ouvi falar bem demais do Murakami. Nunca li nada de autores orientais! Você tá gostando?

      1. Aline 26 de agosto de 2014
        às 09:18

        Estou amando! Tanto que já devorei quase todos os seus livros publicados em português. Só falta Caçando Carneiros, que foi lançado este mês. Se algum dia se interessar, sugiro começar por Minha Querida Sputnik ou Kafka à Beira-mar, que são mais curtos e, portanto, dá pra ter uma noção do estilo dele. Eu comecei com 1Q84. No começo achei um pouco chato, mas na metade do primeiro livro (são 3), eu não conseguia mais largar. O que gosto no Murakami, além das coisas surreais, é que ele sempre aborda em algo relacionado a música e livros clássicos. Aprendi muita coisa com ele.

  9. Annina 25 de agosto de 2014
    às 15:36

    Oi, Gabi!

    Estou tendo meu primeiro contato com Dostoiévski; estou lendo “O Eterno Marido”. Tenho essa mesma impressão que você, que o Dostoiévski é muito focado nos diálogos, não descrevendo seus personagens. Porém, isso não tem sido bom pra mim… pelo menos nessa obra… eu fico realmente confusa e com a sensação de que estou perdendo alguma coisa. Estou quase acabando o livro, que é curtinho, e posso dizer que ainda não entendi “qual é” a dos dois personagens principais. Bom, eu odeio um deles, pelo menos. Acho que já rolou uma empatia, pelo menos! rs

    Estou cada vez mais adoraaaando ler clássicos e autores consagrados. Como é gostoso, né? Li “Senhor das Moscas” porque fiquei curiosa com seu relato do livro e AMEI! Que livro fantástico! Minha vontade era reler no mesmo momento que terminei, mas vou esperar um pouquinho…

    Beijo!

    1. Gabi 25 de agosto de 2014
      às 23:34

      Ahhhh, que bom que você curtiu, Annina! Eu fiquei muito empolgada com o Senhor das Moscas e tô indicando para várias pessoas. <3 Que pena que você não está curtindo esse do Dostoiévski... Não conheço a história desse livro, mas, quando for ler uma segunda obra dele acho que vou optar pelos Irmãos Karamazov, sei lá. Acho que tenho menos chances de me decepcionar.

      1. Annina 28 de agosto de 2014
        às 13:42

        Gabi, eu estou incomodadíssima por não ter compreendido Dostoiévski! hahahahahaaha! No final das contas, até gostei do ‘O Eterno Marido’, mas não amei… Vou providenciar outras obras do autor, porque eu quero mesmo me permitir novamente!

        Beijão!

  10. Tany 26 de agosto de 2014
    às 00:47

    Como amo seus posts sobre livros <3
    Primeiro porque não é só lançamento e YA, que eu amo, mas é bom ver alguém lendo clássicos e falando sobre eles no blog. Segundo porque geralmente você acaba lendo livros que me interessam, e esse é só mais de uma lista imensa. Eu sempre quis ler o livro e sempre soube que era um pouco 'complicado'. Acho que não cheguei no momento dele, sabe? Não sei se você tem isso de que naquele momento você precisa ler livro x, mas eu geralmente escolho livro dessa forma. :)

    Ansiosa para a parte 2.

    1. Gabi 28 de agosto de 2014
      às 14:29

      Oinnn, Tany! <3 Obrigada! Eu sei muito bem do que você está falando - e acho mesmo que isso acontece. As pessoas têm momentos para ler livros. Não adianta pegar um que você não está muito no clima... não é legal se forçar desse jeito. Take your time, como dizem, hahaha. :)

  11. Gabi 26 de agosto de 2014
    às 20:30

    Oi Gabi! Li esse livro para um trabalho de filosofia no terceiro ano do ensino médio e gostei de verdade! O que me ajudou a compreender o livro foi toda a pesquisa que tive que fazer, e creio que, se eu tivesse lido simplesmente por ler, nada entenderia. Eu relacionei a obra com a liberdade segundo Sartre, com o super homem de Nietzsche e com a obra do Kierkegaard… Vale a pesquisa! Um livro com essa densidade dá medo mesmo, e esse é um dos poucos nos quais eu cheguei a me aventurar… haha Atualmente, tô sofrendo para ler a obra homônima do Fernando Pessoa! Tinha a impressão que era tão fácil ler os poemas mais famosos dele no colégio… Mas era porque eu não entendia mesmo! haha Beijos

    1. Gabi 28 de agosto de 2014
      às 14:33

      Nossa, deve ser ainda mais incrível ir lendo acompanhada de uma pesquisa, né, Gabi? Que legal! :D Acho muito legal dissecar obras como essa, pra conhecermos realmente onde estamos pisando. A única que estudei de verdade foi V de Vingança, que nem é livro, é graphic novel, para o meu TCC. Foi uma das coisas mais legais que já fiz na vida! Queria muito poder fazer o mesmo com outros livros. :)

  12. Gabriela Lira 13 de abril de 2015
    às 22:24

    Terminei recentemente de ler do Dostô Os Irmãos Karamázov, decidi deixar Crime e Castigo para depois por ser menor, mas está na minha listinha de livros para ler nesse 2015.