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O Encontro Marcado, de Fernando Sabino

“Esta é minha vida: subir Bahia e descer Floresta”. Se você é de BH já deve ter escutado esse adágio do cronista mineiro Rômulo Paes, se não, saiba que a rua da Bahia foi, e ainda é, um importante reduto para os boêmios da cidade.

A rua liga a Praça da Estação à Praça da Liberdade, o antigo centro do poder em Minas. A boemia concentrava-se nessa rua pois era o meio do caminho entre a baixa BH, representada pela estação de trens, e a BH da burguesia, da Praça da Liberdade; até hoje é possível ver a importância desse trecho de asfalto tão democrático (bares e mais bares, sempre lotados, se sobrepõe quarteirão após quarteirão).

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A futura Rua da Bahia, em 1910.

Mas porque falar sobre um ponto tão peculiar da geografia de BH? Pois esse era o caminho da juventude mineira que, ao longo do tempo pintaram BH com novas cores e letras, como Carlos Drummond, Roberto Drummond, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Hélio Peregrino, Oto Lara Resende entre muitos outros que continuam abrilhantando as mesas de bar e calçadas.

Achei impossível começar esse texto sem fazer essa pequena digressão – mesmo que, ao final, a rua não tenha nenhuma importância no desenvolvimento do que tratarei, sua atmosfera passa exatamente as mesmas sensações que tive ao ler O Encontro Marcado, do escritor e cronista mineiro Fernando Sabino. Os prédios, as fachadas, os bares e o ar (muitas vezes saturado de álcool) continuaram parados no tempo , suspensos na felicidade imemorial que aqueles tijolos e pedras passam a quem ali sobe ou desce. Quem tiver a oportunidade de conhecer a BH moderna não pode abrir mão de fazer uma pequena viagem ao tempo e deve dar uma passadinha na Rua da Bahia, no Centro Cultural de BH e no Edifício Arcângelo Maletta (todos na mesma rua).

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É inevitável para mim, todas as vezes que passo por este local da cidade, fazer uma associação com a obra de Sabino. Ele foi um escritor e cronista mineiro e, talvez por isso, sua obra pode não ter transcendido além das fronteiras de minas, mas deve ser lida e venerada por todos; é um retrato da sociedade mineira e carioca da década de 40 e 50.

O livro – espécie de biografia do autor – trás a história de Eduardo e seu crescimento na capital mineira. O acompanhamos desde a sua infância até sua maturidade, no Rio de Janeiro e o que vemos é o seu crescimento enquanto homem, enquanto pessoa, e sua busca desesperada à procura de si mesmo e da verdadeira razão de sua vida.

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Fernando Sabino

Em uma primeira parte do livro, acompanhamos o personagem em sua infância, suas paixões; brincadeiras; as piscinas do Minas Tênis Club e uma das cenas mais célebres e reinterpretadas em BH de todos os tempos, a escalada dos arcos do viaduto de Santa Tereza – missão bastante ariscada (crianças, não tentem isso em casa!); eles sobem em um dos arcos do célebre viaduto belo horizontino e, lá em cima, abaixam as calças e urinam em protesto ao mundo, declamando “mijemos em comum em uma festa de espuma”, de Vinícius de Moraes.

Eduardo tem todas as angústias e medos que um garoto possa ter, daí o reconhecimento imediato de quem lê com o personagem. Li a obra há uns 15 anos e, na época, não sabia se lia uma ficção ou um escrito sobre minha própria vida. Identifiquei-me com o personagem de tal forma, que até hoje sou marcado com suas passagens.

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Arcos do Viaduto de Santa Tereza. Foto: Gabriela Barbosa.

Eduardo e seus amigos, Mauro, Hugo e Amorim, que o acompanharam desde a infância, fizeram uma promessa mútua de encontrarem-se 30 anos mais tarde, independentemente do rumo que a vida os tiver levado. A passagem inexorável do tempo afastou-os – Eduardo casou-se com a filha de um importante político e mudou-se para o Rio de Janeiro. A partir dessa ponto, a sua busca por si começa a ganhar ares mais maduros. Os amigos são chamado de os quatro cavaleiros do apocalipse que, na realidade, representam, além de Sabino, Hélio Pellegrino, Otto de Oliveira Lara Resende e Paulo Mendes Campos – hoje, os quatro estão imortalizados em estátuas que parecem se cumprimentar e chamar uns aos outros para um regalo.

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Excelente retrato de uma geração, a obra mostra o crescimento dela. Das brincadeiras dos estudantes de medicina, que enterram um esqueleto nos jardins da Praça da Liberdade à visão demoníaca – em uma cena bastante surrealista – do diabo na ilha do Parque Municipal e à sua iniciação sexual e amorosa. O que vemos é a nós mesmos! As angústias de crescer, de amadurecer.

Ao final, em uma segunda parte que descreve a sua vida adulta de homem casado – e infeliz enquanto tal – e responsável no Rio de Janeiro da década de 50, em plena Copacabana, vemos é o desespero de um homem que ainda não se encontrou.

E, em um trecho emocionante, de autodescoberta, os personagens encontram-se no dia marcado. É o encontro.

Vale a pena ler e se emocionar com esse livro e ser jogado em um mundo de melancolia e procura – o encontro marcado no título talvez seja um encontro consigo mesmo!

De tudo ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso recomeçar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono um ponte, da procura um encontro.

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3 comentários

  1. Alice Idália 31 de janeiro de 2013
    às 16:00

    Já li esse livro e é realmente bom. Depois de ler eu combinei com minhas amigas de escola a mesma coisa, só que nos reencontraríamos 5 anos mais tarde. Hoje nem nos falamos mais, infelizmente.

  2. Vanessa 31 de janeiro de 2013
    às 22:16

    Quem me dera ter lindo O Encontro Marcado com todas essas sensações de quem só vive em Belo Horizonte pode ter.

  3. Deborah 7 de fevereiro de 2013
    às 19:40

    Eu adoro a escrita do Sabino e esse livro é um dos meus preferidos. Apesar de toda angústia que ele me deu (de sempre tentar fazer um paralelo com a minha vida)…
    E, uma curiosidade.. vc leu esse livro há 15 anos ou com 15 anos? rs