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O que acontece quando você compra de quem faz

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Antes de entrar nessa aventura do armário-cápsula, eu não tinha noção de que seria um caminho sem volta. Conforme você vai refletindo sobre si mesma e estudando sobre o assunto, fica impossível comprar roupa sem se questionar antes. E é algo que fica 24h por dia na cabeça, vira parte de você mesma. Eu acredito muito que vestir também pode se tornar um ato político – por que não usar apenas aquilo que acredita?

Claro que frear o consumo exagerado é o mote não só de quem segue o armário-cápsula, mas de quem percebe que comprar muito não é sinônimo de felicidade. Porém, comprar é ainda uma prática presente nas nossas vidas e é por isso que eu penso que, já que poucas de nós conseguem abolir da própria vida, por que não tornar esse ato de compra mais consciente? Por que não se questionar antes de adquirir algum item? E não menciono só perguntas como “isso se encaixa no meu estilo?”, mas também “quem está por trás da criação dessas peças?”.

A Jardin é uma marca que admiro há tempos. Vocês podem procurar na busca do blog mesmo e verão que o primeiro post que fiz data de 2012. E, mesmo conhecendo a marca por tanto tempo, só agora pensei em visitar o showroom de cabo a rabo, conhecendo cada cantinho e aprendendo sobre o processo de criação das peças. Como disse nesse post, foi uma experiência inigualável. Nós não valorizamos peças assim até o momento que colocamos o rosto de quem fez em cada produto.

A Bhárbara, dona da Jardin, me explicou como funciona o processo, desde a ideia, o desenvolvimento dela e a concepção das peças até a produção e a venda. E eu acho que essa visita mudou bastante a minha visão de como encarar as roupas que visto. Um item criado por alguém que você conhece vale muito mais do que qualquer coisa que pegamos na prateleira de uma loja.

É por isso que a valorização do artesanato está sempre em discussão: aquele objeto tem alma, tem alguém por trás que ama o que está fazendo. Essa energia passa para a gente, é nítido. As peças que hoje eu tenho da Jardin são as minhas preferidas no guarda-roupa, e quando que eu as visto, me sinto importante, me sinto bonita. É a tal da energia que falei.

É muito bom poder valorizar o trabalho feito com tanto suor aqui do nosso lado. Marcas pequenas e brasileiras, como a Jardin, compram menos tecido, produzem menos peças. E esse fato já basta para que os custos sejam muito mais altos e precisem de concessões na hora de trazer a coleção à vida. Isso encarece a produção, inevitavelmente, junto com vários outros fatores como os custos fixos, que envolvem o espaço, os funcionários, a luz, a água, a internet, a limpeza, o transporte, as embalagens etc.

 

Galeria de imagens

Do outro lado, temos grandes cadeias de lojas que forçam um meio de trabalho desumano (se você viu The True Cost, sabe do que estou falando) e que ganham cada vez mais dinheiro às custas disso. Assim, chega a hora de começarmos a nos questionar: essa blusa de 10 reais conseguiu custear minimamente todo mundo envolvido nesse processo? Bom, nós sabemos que não.

Ao mesmo tempo, sabemos que roupas de designers são caras, inalcançáveis para muita gente. Mas aos poucos fui aprendendo que vale mais a pena deixar de comprar 10 blusas por 100 reais e investir em uma boa blusa de 100. A dica – que eu aprendi com a Ana – é correr atrás de bazares, liquidações, seções de promoção em lojas online, feiras e até no Enjoei para comprar peças de boa qualidade de uma marca que a gente curte. É possível encontrar itens de estilistas por preços acessíveis nesses lugares. E por “acessível” eu quero dizer: uma calça pode custar o mesmo valor de uma fast-fashion, mas com uma qualidade infinitamente superior e uma produção bem mais justa.

Claro que vale a pena não se deixar cair no conto do vigário. Não é porque uma peça é cara que ela tem qualidade. A Zara tem itens bem caros – e eles não possuem, necessariamente, qualidade. Mesmo nomes que são conhecidos há tempos, como a Brooksfield, também se utilizam de mão de obra escrava, por isso, o melhor mesmo é sempre buscar saber tudo o que puder sobre tal loja. A dica é tentar fugir dos shoppings e se aventurar por lojas físicas e online (ah, essa internet maravilhosa!).

Uma vez que se veste uma peça que foi feita com carinho por alguém, passa-se a exigir muito mais das roupas que entram no armário. Não aceitamos qualquer coisa, ficamos “chatas” com os detalhes. É possível perceber mais claramente o item que vai durar e o item que só vai resistir até o terceiro mês. Sem contar que acabamos criando um laço com as peças de qualidade que vestimos.

Acho que isso acontece porque enxergamos sentido no ato de se vestir. Não se trata apenas de uma roupa bonita pendurada numa loja. Trata-se de um trabalho intenso por trás, feito por pessoas que acreditam naquilo que fazem – e que se preocupam com quem está envolvido no processo. Pessoas que também estão preocupadas sobre o que você achou das peças delas e como será o caimento das roupas no seu corpo.

No dia que fui à Jardin, escolhi uma calça. Como tenho 1,58cm de altura, a calça ficou arrastando no chão. A própria Bhárbara foi quem marcou a calça para ajustar. Naquele momento, eu pensei como toda essa experiência tinha sido incrível e como eu cresci depois disso. As roupas ficam no seu corpo o dia todo. Elas são tão importantes, então por que não escolher só peças incríveis? Mesmo que você tenha que guardar dinheiro durante meses, a satisfação é muito maior do que simplesmente comprar mais 10 camisetas iguais de fast-fashion.

Por isso, se vocês ainda tem alguma dúvida da importância de comprar de quem faz, visitem o showroom de uma marca ou estilista que você admira, peçam para os designers explicarem sobre as suas coleções, as suas ideias. Conversem com outras pessoas que trabalham por lá, vejam onde são feitos os moldes, encostem nas máquinas de costura. Todas as coisas têm alma, tem um propósito. É impossível sair ilesa de uma experiência dessa. :)

Para quem quiser continuar lendo sobre esse assunto, indico muito esse post da Ana e essa matéria da Marina para o Modefica. Vamos nos informar mais!

look-jardin

Essa sou eu, vestindo roupas que amo e acredito. :) Mais looks aqui.

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18 comentários

  1. VANESSA BRUNT 22 de junho de 2016
    às 10:35

    Gabi, que maravilha de postagem! Faz um tempo que tenho ‘caçado’ comprar apenas produtos orgânicos, desvendando mais sobre o processo de cada um, buscando ver se passaram por testes desnecessários em animais (grrrr! – só de pensar). E fazer isso com as roupas é fundamental! Além de todos os pontos de absurdos que ocorrem, como você citou (trabalho escravo por trás, etc), também ganhamos assim uma conexão incrível com o que vestimos, de fato, e ficamos, além de com a alma limpa, com muito mais noção e valorização do que temos. Menos futilidade, mais consciência. Adorei tanto! <3

    http://WWW.SEMQUASES.COM

  2. ana soares 22 de junho de 2016
    às 10:49

    Gabi, que orgulho dessa postagem! Estamos reverberando uma nova forma de pensar e consumir moda. Isso é lindo demais <3

  3. Karin Paredes 22 de junho de 2016
    às 11:00

    Gabi.
    Sei que não foi essa a intenção, mas esse post é um tapa na nossa cara sobre o consumo de roupa.
    Depois de lê-lo, parei para refletir e como fazemos consumo de tudo (de comprar roupa a escolha do lugar que iremos casar) sem uma reflexão, sem pensar no por trás. Como ficamos alheios ao processo para algo chegar até nós.

    Com a polêmica da Brooksfiled e tantas outras notícias sobre exploração no mercado têxtil (em todas as suas instancias) acho que chega a hora que devemos parar para pensar um pouco,
    Ainda temos um longo caminho para percorrer, Seja para um consumo mais consciente ou para lutar por melhores condições de trabalho para aqueles que produzem (realmente) a camiseta básica que estamos usando.

    Mil beijos

  4. Denise 22 de junho de 2016
    às 11:02

    QUE LOOK LINDO ESSE DO FINAL!!!!!! Vou pinar. <3

  5. Chell 22 de junho de 2016
    às 11:59

    AMOR ESTE POST!!

    ” Marcas pequenas e brasileiras, como a Jardin, compram menos tecido, produzem menos peças. E esse fato já basta para que os custos sejam muito mais altos e precisem de concessões na hora de trazer a coleção à vida. Isso encarece a produção, inevitavelmente, junto com vários outros fatores como os custos fixos, que envolvem o espaço, os funcionários, a luz, a água, a internet, a limpeza, o transporte, as embalagens etc.”

    Ai tem gente que reclama que as coisas da Alpaka são “caras”, mas a gente tenta abaixar ao máximo o valor de produção pra sair na melhor qualidade possível e … ninguém vê este trabalho todo por trás sabe?

    Parabéns pelo post, e se quiser eu mostro pra vc meu home office da Alpaka =D

  6. Paula Reggiori 22 de junho de 2016
    às 12:04

    Muito bom o seu post, eu gostaria de praticar mais o consumo consciente, mas acho um tema complexo demais e que foge da realidade de algumas (muitas) pessoas, principalmente em um país como o nosso…

    E as minhas experiências pagando mais caro por certas peças, com uma marca mais forte, nunca foram boas, ai no final me sinto mal pagar mais caro numa peça que tem a qualidade levemente superior ou até inferior que uma peça de fastfashion ou até mesmo de ebay.

    Nunca consegui comprar de marcas menores e mais sustentáveis, não que eu lembro, mas as que eu visitei fugiam bastante da minha margem de preço, infelizmente =/ Pelo menos as daqui de Curitiba.

    Um beijo,
    Foca no Glitter

    1. Gabi Barbosa 22 de junho de 2016
      às 13:45

      Oi, Paula! Então, eu acho que é questão de autoconhecimento e de costume também. Por exemplo, é possível encontrar peças boas por precinhos ótimos em brechós e bazares – mas para isso é preciso gastar energia garimpando e experimentando, e não é sempre que as pessoas estão dispostas. E é aquilo, quanto mais falamos sobre isso, mais as pessoas vão se acostumando com a ideia de não precisar comprar muitas peças ou itens que são tendências. Conforme vamos conhecendo todo esse processo, estudando e nos informando, fica cada vez menos provável dar dinheiro a uma marca que explora trabalho escravo. Acho que Curitiba deve ter várias iniciativas interessantes, como bazares, brechós e marcas autorais. Vi hoje essa notícia, às vezes vale a pena ir dar uma olhada: http://curitibacult.com.br/marcas-autorais-se-unem-em-loja-conceito-em-shopping-de-curitiba/ :)

      Beijo!

      1. Paula Reggiori 27 de junho de 2016
        às 12:49

        Eu já costumava comprar bastante, porém com a moda do consumo consciente, tem brechós que tem o mesmo preço de grife e outros que precisa garimpar mesmo.
        Eu não fui nessa loja de marcas autorais, vou dar uma passada depois e ver se os preços são legais, mas como é em shopping, já acho que encarece bem o preço final. Obrigada pela dica ^^

  7. Alef Bass 23 de junho de 2016
    às 11:03

    Que post sensacional! Confesso que sou muito consumista, adoro comprar coisas novas e que estão em evidência, isso tem diminuído com o tempo, mas mesmo assim ainda percebo que eu não “preciso” de muito do que tenho.
    PRECISO ler mais sobre marcas que utilizam do trabalho escravo, acho que não conseguiria comprar uma roupa sabendo que tem gente sendo explorada para eu me vestir.

  8. Mary 23 de junho de 2016
    às 15:57

    Seria maravilhoso se todas as pessoas que tem essa consciência de consumo tivessem acesso a marcas com os mesmos valores. Mas, infelizmente, aqui no Brasil as coisas são feitas de um modo tal que (absurdamente) nos afastam no que está próximo de nós e de empresas inteligentes, com bons modelos de negócios que só valorizam o trabalho das pessoas e o produto final.

    A gente sabe que muitas dessas marcas são pouco acessíveis, mas não por culpa das empresas, muitas das vezes. É falta de interesse dos grandes em facilitar esse modelo de empreendimento, que tornaria tudo mais simples pras empresas e pra nós consumidoras. Ia ser tão bom!

    É claro, a nossa mudar visão do que é consumir é o primeiro passo. Eu também penso que, mais vale guardar dinheiro por meses para comprar uma calça que vamos comprar com satisfação do que três de uma fast fashion que entrega produtos de baixa qualidade e explora mão de obra. Mas, isso tem que partir de cada um de nós :)

  9. Gabriela Alegre 24 de junho de 2016
    às 12:06

    Gabi, que postagem incrível. Os criativos precisam de motivação e reconhecimento. E te falar, to conhecendo teu blog hoje e já na audácia vou afirmar, o mundo dos blogs precisa de mais gente que escreve bem como você! Adorei :)
    Parabéns, beijinhos

    Gabriela Alegre
    http://www.itsgaby.com

  10. Debb cabral 25 de junho de 2016
    às 20:54

    Amei o post!
    A gente fala tanto sobre consumo consciente mas dificilmente aprofundamos para chegar na questão do valor daquela mão de obra, que não foi explorada ou enganada.

    São pessoas que estudaram, erraram e aprenderam muito e com isso sabem o valor do trabalho. Nós também temos que saber. Eu adoro comprar algo barato, mas não quero que isso venha da exploração.

    Tenho uma lojinha na Tanlup também, a Meow Store. Mais um passo rumo ao consumo consciente de fato!

    Beijão!
    Debb
    http://www.gatoqueflutua.com.br

  11. Ketllyn Fernandes de Deus 1 de julho de 2016
    às 22:33

    Nossa! Como vc captou bem em palavras o quê sinto quando compro de quem faz, rs. Sou artesã e ilustradora por sina, então, sempre gostei muito de tudo feito a mão. Mas com essa sua resenha tudo fez mas sentido. Um prazer conhecer seu espacinho aqui. Serei leitora, certamente. Tb tenho um blog, sobre aquarela e economia criativa, caso tenha interesse em conhecer, fica meu convite carinhoso! http://www.deaquarela.com <3

  12. Flávia Vasconcelos 12 de julho de 2016
    às 22:44

    Olá!! Adorei a postagem e lendo o outro sobre as 5 dicas de compras consciente, lembrei que no quesito escolher bem um item, no processo de custo benefício, penso logo na Melissa. E eis que nessa foto, vejo você com uma. Pra mim, o melhor custo benefício em calçados. Tempos atrás comprava de forma compulsiva, hoje faço isso de forma mais consciente! Parabéns pelo blog!!