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Pontos de vista

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Tem uma frase que circula bastante pelas ~internetes~, e que ganha vários “assino embaixo” de quem compartilha. A frase é: eu sou responsável pelo que falo, não pelo que você entende. Nunca concordei com ela. Talvez por ter cursado Comunicação Social e saber que o que eu emito precisa ser entendido pelo receptor para fazer sentido. E esse receptor, que tem uma bagagem muito diferente da minha, pode interpretar essa informação de mil maneiras. Então, sim, eu sou responsável pelo que falo. Afinal, tenho que entender o meu receptor para emitir a minha mensagem do melhor jeito para que entenda exatamente o que quis dizer.

Há alguns meses, tive uma discussão meio boba com o meu namorado que consistia em algo tipo “o verde não é melhor, o melhor é o azul”. Até que, em um ponto da discussão, lembrei de uma frase que postei no Facebook do Teoria Criativa:

Eu parei de me explicar quando percebi que as pessoas apenas entendem a partir do seu próprio nível de percepção.

Tinha visto no berlin-artparasites e a traduzi. Me senti na melhor ocasião para refletir sobre essa frase. Estávamos quase brigando sobre algo extremamente bobo que não iria levar a lugar algum, porque apenas pensamos de maneiras diferentes sobre certas coisas. E claro que pensamos de um jeito diferente, poxa. Mesmo se nossas vidas tivessem sido iguais (o que não foram, no caso), cada um interpreta tudo ao seu redor de uma maneira singular. Passamos por experiências diversas, reagimos de determinadas formas aos estímulos e vamos criando uma bagagem que nunca será a mesma.

Eu posso falar X e você entender Y. Isso é ainda mais comum na internet, quando não conseguimos entender bem o tom que a mensagem foi passada. Quantas vezes não erramos a forma que interpretamos uma frase – seja no Facebook, no Twitter ou no WhatsApp? “Nossa, mas não precisa ser grossa assim”. “Mas não quis ser grossa, só falei que não sei fazer isso”. Esses ruídos acontecem muito, e precisam ser revistos e trabalhados. Estamos nos relacionando com pessoas, né? É normal que isso aconteça.

E aí eu fico pensando como algumas discussões, algumas explicações, são totalmente desnecessárias e só desgastam a nossa vida na Terra. Principalmente entre pessoas que não se conhecem muito bem. O fato de você desconhecer a história de vida de alguém já faz com que vários pré-julgamentos ocorram. Cada pessoa tem um ponto de vista, criado a partir da sua vivência, e nunca conseguiremos transferir o que pensamos para a cabeça de alguém (ou vice-versa). Por isso, acho que muitas das discussões que temos durante a vida são vazias. Ignoramos o outro ser humano na nossa frente e só queremos mostrar o quanto estamos certos, com o objetivo de rebater toda e qualquer frase proposta pela outra pessoa.

Não é difícil que alguém interprete completamente errado aquilo que dissemos, porque podemos ter nos expressados mal, sem avaliar quem é a outra pessoa e sem adaptar a mensagem para que ela possa entender. E, além disso, ainda há a questão da bagagem que cada um carrega. Por mais que tentemos explicar da melhor maneira, não é uma garantia de que a outra pessoa irá entender ou concordar completamente.

Não estou dizendo que não podemos debater, pelo contrário. Acho justo (e necessário) debater de uma forma saudável, tentando entender o lado do outro e colhendo informações – mas com quem sabemos que também vai fazer o mesmo. A melhor coisa é você perceber que a discussão que você entrou vai levar a algum lugar, vai acrescentar coisas novas aos dois lados. E que ninguém vai ficar chateado pelo outro pensar diferente. Tá tudo bem não concordar e tá tudo bem não entender por que a outra pessoa pensa de determinada forma. Ninguém vai assinar embaixo de tudo o que você fala.

Acho que é importante pontuar também que, como vocês sabem, eu sou feminista. Então, minha vida é problematizar, discutir e questionar as coisas. Mas o tipo de discussão que me refiro agora é aquela que não é necessariamente construtiva, aquela que não vai mudar tanto a nossa vida assim. Só a título de curiosidade, o meu desentendimento com o meu namorado que mencionei antes era sobre o fato de eu não concordar com o modelo de trabalho atual – de 9 às 19, bater ponto, etc – e ele concordar com isso.

Aprendemos um com o outro? Aprendemos. Mas eu continuo não concordando com ele e nem ele comigo. E é isso. Concordamos em discordar. É bom conviver com as diferenças. Ninguém deve pensar igual, nem mesmo em um relacionamento. Afinal, como é que poderíamos aprender um com o outro todos os dias, não é mesmo?

Ilustração: Artista desconhecido (avise se souber!).

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18 comentários

  1. Bárbara Bastos 5 de outubro de 2015
    às 17:48

    Comecei com o post superfeliz em concordar!! Estava pensando justamente nisso ontem, acredita? Numa propaganda de chá que circula no Face, o top comment era justamente “sou responsável pelo que eu falo, não pelo que você entende”. E meu posicionamento – sob o olhar de psicologia haha – é parecido com o seu. Se você fecha os olhos e os ouvidos para o que o outro entende, no final, todos estarão matraqueando e ninguém estará escutando, não é mesmo? :)

  2. Bruna Guedes 5 de outubro de 2015
    às 17:56

    Realmente, as pessoas só entendem o que elas querem, esse tipo de pessoa é a pior, pega o que a pessoa fala e transforma num nível que chega a ser assustador..
    Também parei de dar atenção, é perder a paz de espírito. Percebi que o que vale é minha consciência limpa xD
    beijos e adorei o post
    Eu vii a lua, ficou linda :3
    Posso chamar isso de tag!? Achei tão legal, amei mesmo, a criatividade foi linda e feliz nesse post haha
    beijos
    Ganurb

  3. iana lua 5 de outubro de 2015
    às 19:18

    adorei! desde pequena evito qualquer tipo de desentendimento – o que muitas vezes me leva a ficar quieta mesmo quando não concordo com alguém… seu texto me fez pensar que, assim como discutir por tudo não é saudável, não discutir por nada também não é! talvez eu deva avaliar melhor qual discussão vale a pena, em vez de simplesmente fugir de todas. hehe :)
    um beijo!!

  4. Mariana 5 de outubro de 2015
    às 19:59

    Sensacional o post, amei ler e, poxa, as coisas são engraçadas demais, porque eu estou pensando muito nisso ultimamente e vivenciando coisas que me colocam pra pensar exatamente na validade das discussões. Caiu como uma luva :)

  5. Mãndy 5 de outubro de 2015
    às 20:13

    Isso me lembrou de algo que as pessoas costumam falar, “se eu fosse você faria isso e aquilo lá”, quando alguém fala assim eu sempre penso “se você fosse eu, você teria feito as mesmas coisas que fiz porque você seria eu. Teria vivido as minhas experiencias e a minha vida então não tomaria decisões diferentes”. Você pode imaginar o que você faria naquela situação caso você vivesse ela, mas o fulano vai agir da maneira que ele vai agir pq ele viveu diferente, é uma pessoa diferente.

    E essa coisa de interpretar mensagem é um problemão, A gente tem que tomar cuidado com o jeito que fala se não vira uma bagunça.

    1. Gabi Barbosa 5 de outubro de 2015
      às 21:02

      É exatamente isso o que você disse, Mãndy! Também penso da mesma forma que você. É muito fácil dizer o que faria quando você mesmo não passou por uma situação parecida. E ainda assim, mesmo que tenha passado, não dá para julgar que todo mundo vai ter uma atitude igual, né? Somos muito diferentes – cada um de nós é um universo, e nem nós mesmos sabemos qual seria a nossa reação diante determinadas situações.

  6. Juliana rosa 6 de outubro de 2015
    às 07:46

    Ser feminista: uma vida em problematizar, discutir e questionar.
    Me descreveu haha :)

  7. Jess 6 de outubro de 2015
    às 12:28

    perfeito esse post!
    eu sempre fui do tipo “adoro polêmica”, nunca tive problema em debater, nem mesmo discutir. Mas esse ano eu mudei muito nisso. Eu meio que estou muito mais cautelosa com o que eu falo, e mais atenta a não chatear os outros. Acabei vendo que eu era meio individualista, jogando meus argumentos “doa a quem doer”. Acho que a maturidade nos ensina que a verdade quase sempre é um ponto de vista. cada um tem o seu.

    mas é importante pontuar o que vale discutir ou não. Porque também fugir de todas as discussões não é bom. Não defender nossas opiniões tampouco é.

    mas a vida ensina o caminho do meio. nem 8, nem 80 :)

    1. Gabi Barbosa 6 de outubro de 2015
      às 14:00

      Sim, Jess! É bom ir selecionando as discussões – aquelas que valem a pena daquelas que não levam a lugar nenhum. :)

  8. Ramon Abreu 6 de outubro de 2015
    às 12:57

    Gabi, ainda estou processando todas as informações, então vou ler mais algumas vezes. Bem, como feminista concordo com o seu discurso e também acho que as diferenças são mais do que necessárias, afinal, sem diferença não há aprendizado. Vamos problematizar sim, vamos discutir sim e vamos pensar sim. Ainda não é proibido.
    Beijo no co re <3

  9. Giovana Garbellini 6 de outubro de 2015
    às 15:48

    Olá Gabi!! Achei super interessante seu post!! Achei engraçado encontrar alguém que falasse sobre isso, pois tive isso em sala de aula na faculdade na semana retrasada!! Realmente, quando tive contato com isso, comecei a ver as coisas de forma muito diferente e também passei a enxergar que somos SIM responsáveis pelo nosso discurso. Muito legal seu post Gabi!! Amei seu blog *-* Muito sucesso pra você :*

    Gigi Garbellini | http://lapetitegigi.wix.com/blog

  10. Pams 7 de outubro de 2015
    às 19:21

    Excelente, concordo com tudo, isso é muito recorrente nos dias atuais com a evolução das multimídias e redes sociais. Talvez, indiretamente, esse seja um dos motivos da minha personalidade mais observadora e cautelosa.

  11. Leli Martins 9 de outubro de 2015
    às 18:39

    Bem, pra início de conversa, eu concordo com você. haha
    É muito difícil para as pessoas entenderem que cada um interpreta e encara a vida, os fatos de uma maneira distinta, de acordo com experiência, genética e o que for. Eu justamente vinha meio que travando uma batalha para que os outros tivessem essa compreensão. Demorei para perceber que estava me contradizendo ao fazer isso.

    Agora deixo pra lá (ou tento na maioria das vezes). Em um momento a gente concorda, em outro não… e é assim mesmo.

  12. Marina 10 de outubro de 2015
    às 22:24

    Eu não concordo hahahahaha brincadeira! Concordo completamente. Opinião é uma coisa séria, realmente cada um tem a sua com base na própria vida.
    Beijos e vale dizer que muito bom o texto e você se expressou maravilhosamente bem! :D

  13. BA MORETTI 4 de novembro de 2015
    às 02:37

    obrigada por esse texto ♥ tenho achado extremamente necessário lembrar esse tipo de coisa. em tempos de tanta luta (e cada vez mais visíveis) parece ser quase que inevitável cair em discussões desgastantes pela falta de empatia alheia. porque ninguém tá afim de ouvir o outro, mesmo que não concorde com nada… é como se todo mundo fosse obrigado a concordar com o outro. simbora respirar um pouco, vamos sentar pra conversar, deixa eu tentar te entender e mesmo que eu continue não concordando com seu ponto de vista, tá tudo bem ♥ e por aí vai…

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