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Só um desabafo

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A TPM me deixa à flor da pele. Coisas que costumam passar com um certo impacto sobre mim parecem me derrubar mil vezes mais. E, nessa semana, tive a brilhante (só que não) ideia de ler um livro e assistir a um filme que demonstram a toxicidade de uma sociedade patriarcal.

O livro em questão, cuja leitura já se alonga por algumas semanas, é O Amante, de Marguerite Duras. Em suma, diz-se que esse é o livro mais autobiográfico da autora, onde conta sobre a sua iniciação sexual, aos 15 anos, com um rico chinês de Saigon. Ainda estou caminhando na história, mas as partes árduas já aparecem logo no início. A mãe conservadora e o irmão possessivo, drogado e cruel tornam a narrativa difícil de se passar ilesa.

A narrativa, que me deixa triste sempre que a retomo, somou ao filme que assisti nessa terça-feira: A Garota no Trem, baseado no best-seller de Paula Hawkins. O filme ainda está no cinema e não quero soltar spoilers grandes, mas a trama gira em torno de uma tragédia paralela a episódios horripilantes de gaslighting. O termo gringo significa nada menos do que homens que manipulam informações na intenção de fazer com que a mulher comece a duvidar de sua memória e até da sua sanidade mental. O (infelizmente) clássico caso do “você está louca”. Um abuso psicológico dos mais cruéis.

Durante o filme, me comportei como uma verdadeira aquariana com ascendente em peixes. Fiquei revoltada e caí no choro agarrada aos meus ideais, como uma criança abraçando o bichinho de pelúcia. Dói quando a realidade aparece tão escancarada assim. É muito mais confortável do lado de cá do muro de privilégios. Nunca passei por algo tão intenso, mas chorei como se tivesse acontecido com a minha melhor amiga.

Só consigo pensar em todas as mulheres que passam por experiências como essas ou ainda piores. Me sinto inútil – da mesma maneira que me senti ao ler As Boas Mulheres da China. A vontade de mudar o mundo cedeu o lugar para uma sensação horrível de impotência, e eu só precisava sentar no computador e desabafar um pouco.

Não sei até que ponto qualquer um dos meus textões sobre feminismo no Facebook ou no blog impactam alguém. Só sei que eles me ajudam demais a organizar as ideias e a não entrar em parafuso. Ainda assim – e por mais que eu saiba que não existe resposta – eu só fico me perguntando: por que os seres humanos são assim?

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17 comentários

  1. Aline 23 de novembro de 2016
    às 11:41

    Seus textões ou desabafos refletem MUITO sim nas pessoas e fazem a diferença! Há um ano meu pensamento era extremamente retrógrado se comparar a forma a qual penso hoje.

    Tem dias que tenho surtos do tipo “preciso fazer algo pra mudar essa situação, essa realidade que muitas vivem”, mas tenho amigas próximas e inclusive dentro da minha família, principalmente citando minha mãe, que passam por relacionamentos totalmente tóxicos e abusivos. Mas, já falei, já tentei ajudar, e elas continuam – por mil e um motivos. O que aconteceu comigo? Saí de bruxa má, perdi amigas e hoje eu dou conselho quando pedem, mas acabo é me afastando. A agonia de ver uma situação ruim, tentar muda-la e ver que o lado que sofre não consegue sair dessa me leva muito pra baixo.

    Mas não seja como eu. Continue!

    Beijos!

    1. Gabi Barbosa 24 de novembro de 2016
      às 11:41

      Nossa, que péssimo, Aline… :( Mas, apesar dos pesares, eu acho que você está fazendo certo. <3

  2. Bruna Guedes 23 de novembro de 2016
    às 12:51

    Nossa, passo tanto por isso…
    Às vezes nem sei que é a tpm triplicando os sentimentos, só vou perceber depois, e então as coisas parecem tocar mais no fundo, ferir ainda mais que o de costume… é agoniante e ao mesmo tempo faz a empatia aflorar mais em mim. Por mais que a tpm passe depois, os sentimentos e o aprendizado que consegui obter com essa “dor” vão estar ali depois e no momento de clareza a gente fica mais forte.
    Boa sorte com essa sensação de impotência, vai passar, você vai se sentir melhor e olhar para isso com mais ânimo ♥
    beijoss
    Ganurb

    1. Gabi Barbosa 28 de novembro de 2016
      às 23:47

      Obrigada, Bruna! Que consigamos seguir com mais ânimo nós duas. <3

  3. Mila 23 de novembro de 2016
    às 13:28

    É difícil mesmo, Gabi. Também sou dessas que chora ao me sentir revoltada diante das mazelas do mundo. A gente não pode carregá-lo nas costas, mas que dói, dói. Mas eu tenho fé de que as coisas estão melhorando e continuarão.

    Beijo grande,
    Mila

    1. Gabi Barbosa 28 de novembro de 2016
      às 23:48

      É isso mesmo, Mila. Tenho tentado pensar positivamente!

  4. Michele santos 23 de novembro de 2016
    às 19:07

    Identificacao total contigo! A cada notícia sobre violência, mas em especial violência contra a mulher, me acabo, ultimamente…revolta, impotência, medo, tristeza. A maldade sempre existiu, mas acho que antes da revolução da internet não tínhamos a dimensão mais real do problema. Ainda assim, é melhor saber e encontrar meios de enfrentamento. Conheci há pouco e adorei seu blog. Um beijo

    1. Gabi Barbosa 28 de novembro de 2016
      às 23:49

      Obrigada, Michele. <3

  5. mariana 23 de novembro de 2016
    às 20:08

    Gabi,
    por mais difícil que isso posso parecer a máxima ¨seja a mudança que você quer ver no mundo¨Ghandi, é o que mais faz forte nesses momentos de dor extrema. Esse homem de tanta sabedoria e amor fez da sua vida o seu legado e creio que a nossa própria vida seja a nossa única e verdadeira contribuição nesse planeta. O seus textos, o seu blog, tudo isso constitui parte de seu legado e representam a mudança que você quer ver no mundo.
    Muito obrigada

    1. Gabi Barbosa 28 de novembro de 2016
      às 23:50

      Essa frase dele é muito real, Mariana! Gosto muito dela também. E eu que te agradeço pelo comentário. <3

  6. Ana Camina 24 de novembro de 2016
    às 11:17

    Te entendo profundamente, Gabi!
    Ultimamente tenho evitado certas histórias, pois têm sido gatilhos pra piorar minha depressão. Ao mesmo tempo eu fico preocupada de me fechar em uma bolha…
    Vamos continuar tentando melhorar como pessoas e ter esperança de que mais pessoas nessa tentativa comecem a melhorar esse mundo louco.
    Abracinho!

    1. Gabi Barbosa 28 de novembro de 2016
      às 23:51

      O jeito é fazer a nossa parte, né, Ana? :)

  7. Mariana 24 de novembro de 2016
    às 11:59

    Assisti As Sufragistas achando que era de boa pq sempre soube o que as feministas passaram. O conhecimento racional não me preparou para a sensação de estar gritando num vácuo sobre direitos das mulheres. No filme está tudo tão exposto, e a sociedade atual indo em 2 passos para frente e 1 para trás, que foi um soco no estômago.

    1. Gabi Barbosa 28 de novembro de 2016
      às 23:53

      Mariana, cê conseguiu resumir o meu sentimento: “estar gritando num vácuo”. Eu quero muito ver o filme (ainda não vi!), mas tenho essa impressão, de que vou perceber muita coisa que ainda acontece hoje em dia. :/

  8. Camila 27 de novembro de 2016
    às 16:21

    Oi gabi! Eu não sou uma pessoa muito interativa. Nunca comento em nada, mesmo. Mas acompanho o seu blog pelo feedly e me senti impelida a vir aqui escrever: você não está sozinha. <3

    1. Gabi Barbosa 28 de novembro de 2016
      às 23:54

      Que linda, Camila. <3 Obrigada! Estamos juntas!

  9. silvana 2 de dezembro de 2016
    às 07:46

    Nossa Gabi estou sem palavras. Simplesmente adoro seus textões e me ajudam muito a refletir ;)

    bjs

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