“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo.”
Poucos autores dominam a arte de dar início a uma obra tão bem como Gabriel García Marquez, já nas primeiras frases de Cem Anos de Solidão, é possível vislumbrar a atmosfera de angústia e eterna nostalgia que perpassa toda a obra. A forma com que o mestre colombiano narra a verdadeira saga da família Buendía e de sua cidade, Macondo, é envolta pela névoa de um saudosismo sonhador, uma realidade fantástica que nos faz apaixonar por todos os personagens (e são muitos), por toda a geografia local e até pelas borboletas amarelas (leia e entenda a alusão!).
É impossível ler o livro e não ter o coração arrebatado por uma onda nostálgica, que nos faz sonhar com ciganos alquimistas, patriarcas sonhadores e bonachões, generais e suas revoluções românticas, filhos e filhas abandonados à sorte de um mundo cruel e uma matriarca boa e incansável em sua sina de sofrimento e cuidado com a família. A história do clã dos Buendía é triste, envolta na magia da Colômbia caribenha arranca lágrimas, seja pela sina da solidão que macula a todos, seja pela sorte de alguns personagens mais queridos.
O livro acompanha a família Buendía, desde quando os primos José Arcádio Buendía e Úrsula Yguaran se casaram, mesmo com o sinistro aviso de que parentes não devem se casar pois acabam tendo filhos com rabo enrolado como de um porco; passando pela vida dos filhos do casal – José Arcádio, Aureliano e Amaranta – e indo culminar na história de todas as gerações da família, sempre assombradas por uma solidão imemorial. Vê-se a história da cidade, de uma pequena vila esquecida à cidade grande e, depois, a volta ao esquecimento a qual todos os personagens são cruelmente legados.
Dizendo assim, você pode pensar de que se trate de um livro de terror, que toda a história gira em torno de solidão e sofrimento – mas não se engane! É uma das mais belas histórias já contadas! Garcia Marquez cria uma atmosfera diáfana – palavra muito presente no vocabulário do autor ;) -, uma atmosfera de sonho idílico, onde todo o sofrimento natural que envolve a vida fica atenuado, leve.
Após terminar o livro, você vai se sentir parte da família, um verdadeiro Buendía! E vai querer ter lutado ao lado do Coronel Aureliano Buendía, farreado ao lado de seu irmão, visto Remédios, a bela ou ter conhecido um dos inúmeros filhos de Aureliano. O livro é uma verdadeira pérola, rico em nomes, imagens e personagens! Para quem não conhece, vale a pena enfrentar as palavras do mestre colombiano.
Só um último comentário: sempre achei que toda a atmosfera do livro combina perfeitamente com Los Hermanos. Rola uma sinestesia muito bacana ao escutar os músicos cariocas lendo Garcia Marquez, especialmente o álbum Ventura.
“(…) estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no instante em que Aureliano Babilonia acabasse de decifrar os pergaminhos e que tudo o que estava escrito neles era irrepetível desde sempre e por todo o sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra.”
Os Buendía só puderam descansar em paz depois que nasceu a primeira criatura vinda do amor verdadeiro, pena que tinha rabo de porco!









Tem 23 anos, é aquariana e idealizadora do blog. Uma amapaense que mora em Belo Horizonte e está fazendo intercâmbio em Lisboa. Vive em constante mudança: de casa e de visual. Adora viajar, ler e descobrir coisas novas. É entusiasta da moda e da fotografia. 





























