Categorias: Livros

Um Teto Todo Seu, de Virginia Woolf

um-teto-todo-seu-virginia-woolf

Virginia Woolf já apareceu aqui no blog quando falei sobre seu clássico Mrs. Dalloway. Apesar de ser muito conhecida pela obra, Virginia não se resume a ela. Na minha jornada, já li outros dois livros de sua autoria: Ao Farol e Um Teto Todo Seu. O primeiro, também é uma narrativa, assim como Mrs. Dalloway. Mas Um Teto Todo Seu é, na verdade, um posicionamento, um grito feminista em meio à década de 1920/1930.

O livro foi criado a partir de palestras dadas por Virginia Woolf em duas faculdades inglesas exclusivas para mulheres. Em ambas, o tema foi o mesmo: “As mulheres e a ficção”, onde a autora procurou fazer uma análise da produção literária feminina e relacionar suas dificuldades com a sociedade patriarcal – o quanto esse cenário desencorajou-as na hora de escrever?

Atualmente, temos uma noção bem clara que os livros escritos por mulheres são subjugados. Conhecemos bem a história de J. K. Rowling, que precisou suprimir seus primeiros dois nomes para que pudesse servir de atrativo também para leitores do sexo masculino. Agora, imaginem esse cenário no início do século passado, onde uma mulher não poderia nem entrar em uma biblioteca sozinha?

Um Teto Todo Seu não é uma narrativa e não é uma poesia. É um ensaio muito lúcido e incrivelmente atual de Virginia Woolf, uma das escritoras britânicas mais importantes do século XX. Na obra, temos o prazer de conhecer as suas ideias e compartilhar todas as nossas inquietações quando o assunto é a produção literária feminina e a assimetria relacionada aos papéis sociais destinados às mulheres e aos homens.

um-teto-todo-seu-virginia-woolf2

Virginia Woolf

É impossível passar ilesa, sem marcar uma partezinha sequer desse livro tão importante. Uma das principais reflexões que tiramos da sua obra é: se Shakespeare tivesse tido uma irmã de igual talento, teriam os dois as mesmas possibilidades de trabalhar com o seu potencial criativo? Como o papel social destinado a cada sexo interfere no desenvolvimento de uma habilidade por vezes nata?

Para Virginia, ao longo da história, foi importante para os homens manterem as mulheres diminuídas para que pudessem se destacar.

É por isso que tanto Napoleão quanto Mussolini insistiam tão enfaticamente na inferioridade das mulheres, pois, se elas não fossem tão inferiores, eles deixariam de crescer. (p. 55)

Na opinião da escritora, as mulheres precisariam apenas de duas coisas para escrever: um teto todo seu e uma renda mensal fixa. Porque, para ela, é impossível pensar em outra coisa quando se está de barriga vazia.

Um dos exemplos que ela sempre cita ao longo do livro é Jane Austen. A autora de clássicos mundiais como Orgulho e Preconceito e Persuasão, escondia seus escritos da família. Ela conseguiu atingir uma visibilidade impressionante, mesmo com tantos obstáculos e mesmo séculos depois. Agora, imaginem só se ela tivesse a liberdade de poder escrever com calma, como tantos homens tiveram.

Às mulheres de classe média, parar de exercer o seu papel social para escrever um livro era impensável. Não à toa temos exemplos tão limitados. Antes de J. K. Rowling, Mary Ann Evans já utilizada um pseudônimo para publicar as suas obras: George Eliot.

um-teto-todo-seu-virginia-woolf3

Mary Ann Evans (George Eliot)

Na verdade, arrisco-me a dizer que Anônimo, que escreveu tantos poemas sem cantá-los, com frequência era mulher. (p. 73)

Para além disso, o que seria da mulher que quebra todas as convenções sociais e começasse a viver de suas obras, de seus escritos? Ela seria valorizada tanto quanto um autor? Quais seriam as represálias que ela receberia ao colocar seus pensamentos em um papel? Um dos trechos mais importantes que Virginia nos escreve é esse:

Seria preciso uma jovem muito decidida para desconsiderar todas as críticas, repreensões e promessas de recompensas. A pessoa teria que ter sido uma espécie de ativista para dizer a si mesma: ah, mas eles não podem comprar a literatura também. A literatura está aberta a todos. Recuso-me a permitir que você, mesmo que seja um bedel, me negue acesso ao gramado. Tranque as bibliotecas, se quiser; mas não há portões, nem fechaduras, nem cadeados com os quais você conseguirá trancar a liberdade do meu pensamento. (p. 109)

São muitas reflexões maravilhosas que Virginia nos deixa em Um Teto Todo Seu e aqui ressaltei só algumas delas. Essa leitura é muito necessária não só para quem quer entender mais sobre feminismo como também para quem ama literatura. A obra é só mais um incentivo para que continuemos lendo mais mulheres e valorizemos a sua produção literária. Fica a dica. ;)

Comente aqui

7 comentários

  1. Tany 3 de novembro de 2016
    às 12:12

    Eu ia começar a reler o meu Mrs. Dalloway mas vou esperar ter cabeça porém já coloquei esse na lista. A Virginia é uma mulher de outro mundo e fico pasma com todos os textos de mulheres de décadas e décadas passadas sendo tão atuais. É triste, mas por um lado é bom tirar como inspiração. Infelizmente, seria melhor se a gente tivesse muito mais mulheres se não fosse a nossa sociedade de hoje e principalmente, de antes.

  2. Thaynara 3 de novembro de 2016
    às 17:43

    Gabi, adorei tua resenha. Já ouvi falar sobre a Virgínia mas nunca peguei uma obra dela pra ler, agora me despertou esse interesse. É incrível pensar que anos atras a mulher era vista como um ser não digno do conhecimento. Já assistiu Blindspot? Nessa série vejo nitidamente a diferença que criam entre os gêneros…

  3. Stéfhanie 7 de novembro de 2016
    às 11:00

    Virginia é uma mulher incrível, né? Toda vez que leio algo dela fico embriagada.

    Acho extremamente importante, nós mulheres, darmos forças a representatividade feminina na literatura. Minha lista de livros femininos (seja personagem ou autora) fica cada vez mais gigante – e surpreendente a cada um deles riscado.

    <3

    Adorei sua resenha.
    Um beijo
    http://www.nossorelicario.com

  4. Bárbara Bastos 8 de novembro de 2016
    às 01:04

    Lendo mulheres, vendo mulheres e ouvindo mulheres!

    Após ler o seu post, Gabi, fiquei pensando nos meus livros preferidos… Harry Potter é o maior de todos, mas percebo que fui agraciada desde cedo por escritoras – antes de Harry Potter, aprendi a gostar de ler com as famosas Stella Carr, Rachel de Queiroz e Eva Furnari… e meu livro preferido da vida toda, depois de HP, é “Éramos Seis”, da Maria José Dupré, autora de outro livro que li quando criança – “A Ilha Perdida”… sim, além de escritoras, todas brasileiras!

    Só depois dessa autoras fui conhecer o Monteiro Lobato (ainda criança) e, depois deste, Harry Potter. O livro de mitologia que até recomprei na Estante Virtual e que lia na adolescência foi escrito pela historiadora Edith Hamilton! Fui vasculhando os livros de casa – e percebi que a representação feminina na escrita sempre apareceu demais para mim desde cedo, então deu um alívio… tô pensando em livros e contos que me tocaram e que ecoam em mim até hoje, e percebo que foram escritos por mulheres! Desde cedo, convivi com escritoras, isso me pareceu tão natural – por isso nunca tinha pensado no tema que você trouxe. A escrita sempre me pareceu um ambiente tão democrático – graças à criação que tive – que nunca pensei no longo trajeto que foi dar voz às escritoras. Fico muito feliz por ter internalizado as coisas dessa forma, sabe? Vejo como um sinal de vitória por parte dessas gerações de mulheres que lutaram por reconhecimento – e que ainda estão lutando.

    [Não sei se minhas professoras do ensino fundamental fizeram de propósito, mas o fato é que li MUITAS mulheres a vida toda! hahahaha]

    No seu outro post (Mrs. Dalloway), você disse ter percebido o quanto autores masculinos estavam presentes em você, nos clássicos dos quais se lembrava, e que, desde então, decidiu ler mais mulheres. Isso não aconteceu comigo na literatura, mas, durante muito tempo, percebi que meus músicos preferidos eram todos homens e que eu não gostava de vocal feminino.

    Inclusive, conheci pessoas de que não gostavam… permaneci durante muito tempo ouvindo cantores até me questionar a respeito disso… por isso essa mensagem é tão importante! Quando pensamos em representatividade, ampliamos nossa visão de mundo; no começo, é esquisito, mas, com o tempo, é isso que o coração acaba pedindo. E, hoje, minha playlist tem mais cantoras, instrumentistas, compositoras… aliás, escuto mais vocal feminino que masculino. E tudo começou também com essa reflexão, com essa autocrítica: por que eu, mulher, não dou voz às mulheres?

    O próximo passo, seguindo a sua dica, é para o cinema: valorizar mulheres na direção, na produção, nos roteiros… fiquei um pouco chocada quando, em uma roda muito interessada em cinema/música/literatura, as pessoas não sabiam citar uma única diretora (nem Sophia Coppola). Temos um desafio, não é?

    E ainda podemos pensar no futebol feminino, de que as pessoas falaram tanto nas Olimpíadas; se as jogadoras não forem prestigiadas, o discurso fica vazio. Essa autocrítica que você fez é fundamental. Tenho ela sempre comigo.

    Voltando ao post: salvei Mrs. Dalloway para ler! E, futuramente, um Teto Todo Seu! :)

  5. Ana carolina guedes 8 de novembro de 2016
    às 22:53

    Gabi, estou estudando a Virginia e é mt lindo ver resenhas dela por aí. Me deu um respiro no meio do tanto de teoria q tenho q ler. Parabéns pela resenha. Bjs

  6. Helena 9 de novembro de 2016
    às 19:52

    Olá Gabi,
    Adorei a resenha, já adicionei o livro como “Quero ler” no meu Skoob, para não esquecer de ler ele assim que eu puder.
    Obrigada pela indicação, já li vários dos livros que você resenhou aqui no blog.
    Beijos

  7. kairos 12 de novembro de 2016
    às 13:19

    Olá Gabi! Você pretende voltar a fazer videos com resenhas dos livros que lê?

    Um abraço.