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Valente, Frozen, Malévola e Alison Bechdel

malevola

Antes de qualquer coisa, quero avisar aos navegantes que há spoilers importantes do filme Malévola, ok? Se você já viu e quer debater sobre, vem comigo! :)

Sou uma das milhões de fãs dos filmes da Disney. Assim como todas elas, desde pequena, assisto aos clássicos de animação e sei de cor alguns diálogos de Cinderela, A Pequena Sereia, A Bela Adormecida, A Bela e a Fera… fora as músicas, que foram uma parte importante da minha infância. Mas só depois de adulta comecei a perceber certas características dos filmes que podem ter influenciado no meu jeito de ser. Explico: nessas produções mais antigas, as princesas não possuem amigas – na maioria das vezes, as mulheres são suas “inimigas”, suas “concorrentes”. Querem ver?

Vamos começar pela Ariel. Seus melhores amigos são um peixe e um siri. A força do mal que ela terá que enfrentar é uma mulher, Úrsula, que enfeitiça o mocinho para que se case com ela. Com a ajuda de seus amigos animais machos, Ariel consegue quebrar o feitiço e mostrar para seu príncipe que era ela a boazinha. Querem outro exemplo? Cinderela. Apesar de ter precisado da ajuda da sua fada madrinha, Cinderela permanece a maior parte do filme sendo hostilizada por suas irmãs e sua madrasta – obviamente, mulheres. Seus principais amigos são os ratos e pássaros, em sua maioria, machos. Querem um exemplo mais novo? Enrolados. O poder de Rapunzel é sugado pela sua mãe má, que se mantém jovem às custas dela. Resta a ela uma amizade com um camaleão macho e seu novo amor que a incentiva a sair da torre – fora que ela consegue ajuda de vários outros homens durante a trama. Ufa!

valente

Não entrarei na discussão da questão pobre-princesa-inofensiva, afinal, já falei sobre isso aqui. Quero chamar a atenção de vocês para um outro quesito. O lance das relações entre mulheres nos filmes da Disney. Como citei acima, parte das produções pintam uma relação de ódio entre elas, e não de cooperação. As protagonistas precisam enfrentar outras mulheres e, para isso, têm ajuda de seres humanos homens ou de animais machos. A figura masculina sempre está presente, o que coloca em dúvida o protagonismo das princesas. Elas não teriam capacidade de lutarem sozinhas? Por que elas precisam da ajuda de seres do sexo masculino, especificamente?

Um dos meus filmes favoritos de todos os tempos, Valente, talvez tenha sido o primeiro responsável por quebrar essa corrente dos contos de fada. Merida, totalmente fora dos padrões estéticos das demais princesas Disney, protagoniza uma história linda sobre o amor entre mãe e filha e a liberdade de poder ser quem você quiser ser. Em Frozen, o enredo se faz na relação entre duas irmãs. Elsa, uma figura poderosa que é trancafiada no quarto convivendo com seus medos, e Anna, mais alegre e expansiva, que sente falta da sua convivência mais próxima com Elsa. Durante toda a narrativa, percebemos que a Disney tira sarro de si mesma com esse lance de “amor à primeira vista” (que acontece em taaantos filmes de princesas) e o beijo de amor verdadeiro. Tanto que, nesse último, o beijo de amor vem de uma irmã se arriscando pela outra, quebrando assim o feitiço.

frozen

E aí que entra o filme Malévola nisso tudo. Ele chega pra acabar com essa historinha de “ah, um beijo de amor de um príncipe encantado”. Pffff, bullshit. Malévola cria um amor pela Aurora muito maior do que do “príncipe”, das três fadinhas e do próprio pai da menina, todos juntos. Um amor verdadeiro, igual ao de mãe para filha. E por que isso não poderia quebrar o feitiço? Ora, poderia sim – e foi isso que fizeram. Malévola é uma personagem complexa, forte, justa. E ela não recebe ajuda só do seu braço direito, o corvo, mas também da menina Aurora, que também nutre um carinho enorme por ela. Queridos leitores, final feliz não quer dizer um beijo de amor entre um príncipe e uma princesa. Até porque a vida de uma mulher não gira em torno do sexo masculino. Nós temos sonhos e medos que vão muito além desse assunto. Tratar dessas questões em seus novos filmes é o grande trunfo da Disney para mim.

Vocês conhecem a Alison Bechdel? Alison foi a criadora do Teste de Bechdel. Provavelmente vocês devem ter ouvido falar dele por aí. Depois que descobri sobre o teste, parei para percebê-lo em todos os filmes que vejo (consequentemente, aplico nas séries e nos livros que leio também). O vídeo abaixo explica direitinho sobre o que estou falando. Ele possui legendas em português, é só habilitá-las.

Se aplicarem o teste nos próprios filmes da Disney, vão se impressionar com um resultado nada satisfatório. E é por isso que os filmes que causam essa reviravolta na história são tão importantes. Eles mostram que mulheres podem se ajudar, jogar no mesmo time e ter um sentimento de amor umas pelas outras, sem precisar da figura masculina envolvida no meio. Acreditem: filmes não são só apenas filmes; eles são um meio de se criar e reforçar padrões e costumes sociais. Quando começamos a ver um caminho diferente do usual nas telas dos cinemas, isso passa muita coisa para os espectadores. Ainda mais quando estamos falando de um público infantojuvenil, ainda em formação.

Crescer com filmes como Valente, Frozen e Malévola poderia ter mudado a minha cabeça desde cedo quanto às minhas amizades femininas. Poderia nem ter passado pela minha cabeça que elas, naturalmente, seriam minhas “concorrentes”, algo frequentemente martelado pela nossa sociedade atual. Aliás, acho que por isso que odeio tanto a expressão “as inimigas choram”. Há tanta discórdia semeada por aí para colocar as mulheres contra si mesmas que ninguém percebe que, na verdade, quanto mais unidas formos, melhor.

Claro que a Disney ainda tem muuuuito caminho pela frente, ainda mais quando falamos de diversidade e representatividade em seus filmes, mas acho que estamos caminhando para isso. Sei que não é algo que irá mudar da noite para o dia, mas estou feliz com os avanços e os passos dados. Claro, desde que esses avanços tragam consigo uma reedição das nossas crenças e da nossa cultura, levantando a discussão necessária para que toda essa estrutura patriarcal perceba que mulheres são seres humanos também.

Para completar, quero indicar esse texto incrível da Jarid Arraes para a Revista Fórum (o qual me inspirou a fazer esse post) e esse texto da Carolina Lancelloti para o site Confeitaria. 

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15 comentários

  1. Aninha 5 de junho de 2014
    às 11:23

    Este foi um dos melhores posts que já li sobre o perfil dos filmes da Disney e como ele influenciou demais nossa infância. Não apenas a questão da rivalidade feminina, mas também determinadas situações machistas impostas pela sociedade e que Disney também nos mostrou lá trás: a mulher indefesa e dedicada aos serviços domésticos (Branca de Neve é a prova pura), e o príncipe forte, protetor e herói. Mas graças a Deus isto vem se transformando, mas concordo contigo que se tivesse sido antes, talvez nossa percepção tenha sido influenciada de outra forma através de Frozen, Valente e agora com Malévola. Vi este último filme ontem e fiquei apaixonada. Confesso que esperava ela um pouco mais má (já que a Malévola é a pior das vilãs da Disney juntamente com a madrastra de Branca de Neve), mas eu me surpreendi com o decorrer do filme e como o afeto de Malévola pela Aurora foi se intensificando, mesmo a chamando de “praguinha”, hehe. Estou adorando esta nova fase de heroínas da Disney.

    Enfim, uma ótima crítica e reflexão Gabi! Adorei <3

    1. Gabi 5 de junho de 2014
      às 11:26

      Obrigada pelo seu comentário, Aninha! ^_^ Você me lembrou bem da Branca de Neve também! Como é problemático isso, né? Ela só tem ajuda dos anões e do príncipe, homens, claro. Gostei bastante de Malévola e poucas coisas me decepcionaram (a gente sempre tende a ter uma expectativa muito grande com filmes assim, né?). Adorei o final que eles arranjaram para as duas. Saí do cinema revigorada. :)
      Beijão!

  2. Bianca 5 de junho de 2014
    às 12:17

    Ao mesmo tempo em que eu entendo esse frisson pelos novos filmes da Disney, acho que o povo ficou tão emocionado pelo discurso que esqueceu de alguns outros exemplos mais antigos, como Pocahontas e Mulan, onde não só não há competição feminina, como também há quebra de paradigmas sobre o papel da mulher (principalmente Mulan). Em ambos os casos os papeis femininos auxiliares são de suporte e orientação. Enfim, acho super legal a disney trabalhar mais na complexidade dos personagens femininos porque este era realmente um movimento necessário, assim como tirar o foco desse mito de príncipe encantado e ir buscar seu tema em outras relações.

    1. Gabi 5 de junho de 2014
      às 12:42

      Bianca, se pararmos para pensar, quais apoios femininos encontramos em Pocahontas e Mulan? É isso que eu quero dizer: por mais que elas sejam guerreiras, fortes e destemidas, elas são guiadas por figuras masculinas – seja ela o pai ou os companheiros mais próximos. E ambas possuem um final feliz com homens (casamento e etc). O que foquei nesse texto é a relação entre as mulheres presentes. Pocahontas tinha a sua vó Willow e a sua amiga, mas a participação delas é muito pequena perto da participação dos personagens do sexo masculino em toda a trama. Da mesma forma Mulan, que convive com mulheres apenas no momento em que está em treinamento para se tornar uma “noiva”.

  3. Sue 6 de junho de 2014
    às 11:32

    Normalmente não costumo comentar, mas achei seu site a pouco tempo e fiquei horas vendo quase todos os seus posts! E esse em especial é muito inspirador, deixei marcado aqui até pra mostrar pra minha mãe, asiática clássica que mal pode esperar pra me ver casada… Enfim.
    Parabéns Gabi, mal posso esperar pelos próximos!

  4. Lari 6 de junho de 2014
    às 12:14

    Oi, Gabi (:
    adoro seu blog, costumo acessar todos os dias e me identifico muito com o que você escreve, tanto no gosto pela leitura quanto em outros assuntos. Quando li o post achei a temática muito interessante, e acho que tá certo, é um assunto que tem que ser debatido mesmo. Mas acho que as coisas são mais complexas que isso.. eu não sou especialista no assunto, nunca estudei Psicologia nem nada do tipo, mas li um livro muito interessante uma vez, chamado A Psicanálise dos Contos de Fadas (não sei se você conhece), que aborda esse tema. A gente não pode esquecer que a maior parte dos filmes de princesa são adaptações cinematográficas de histórias que já existem há muito tempo – o que não impossibilita algumas alterações para adequar melhor ao público, claro. Mas por exemplo, essa questão da princesa sempre ter de lidar com uma mulher que a odeia, e que acaba sendo a grande vilã da história.. pelo que eu entendi do livro, esse é um recurso dos contos de fada para que as crianças, ao lê-los ou ao vê-los na TV, possam direcionar a raiva que sentem da própria mãe para o personagem. É difícil explicar o que está no livro em um comentário, mas, resumidamente, o autor explica que quando se é criança, é comum se sentir culpado pelos sentimentos contraditórios que se tem pela família, especialmente pela figura materna. Então, ao oferecer um personagem que se assemelha à mãe nessa relação de dependência, responsabilidade e poder, mas que é má e por isso merece ser castigada, os contos de fada ajudam a evitar esse sentimento de culpa. Enfim, existem muitos outros aspectos dos contos de fadas a serem analisados, estudados e discutidos.. e eu também acredito que com a mudança na forma de ver e tratar a mulher, algumas de suas características devam ser modificadas – como o único final feliz possível, com a chegada do príncipe e o tão esperado beijo. Mas é importante lembrar que nem tudo o que está na tela deve ser entendido de forma literal – e é o que acontece com as crianças; a forma como elas enxergam a história não é igual à forma com que adultos enxergam.
    Gostei de ler o texto e acho muito bacana quando temas assim são debatidos aqui. Espero ler mais coisas do tipo (;
    ps: Valente também é uma das minhas animações prediletas rs

    1. Gabi 6 de junho de 2014
      às 18:57

      Quero te agradecer pelo seu comentário, Lari! Adoro quando discutimos os assuntos aqui, principalmente quando os posts rendem comentários iguais ao seus. :) Já ouvi falar desse livro – acho que minha mãe estava lendo ele há um tempão, inclusive, hahahah! O texto foi mesmo sob a ótica do feminismo, mas, claro, ele está livre para várias interpretações. Obrigada pelo carinho! <3

  5. Pamella Machado 6 de junho de 2014
    às 19:45

    Oi, gostei bastante do seu post.
    Não tinha pensado antes nesta temática da relação entre mulheres nos filmes das Disney. Achei muito interessante seu ponto de vista. Os filmes da Disney me influenciaram bastante na adolescência, eu era meio dramática a vivia em um mundo cor de rosa ( Graças à Deus superei isso aos 15). Mas talvez por isso mesmo comecei a colocar filmes de princesas de lado completamente!
    O que mais achei engraçado é que antes do filme Malévola estrear, eu havia falado no meu blog exatamente disso da mudança de foco dos filmes da Disney em que começaram a investir mais na relação familiar, como Valente e Frozen. E dessa quebra de ruptura da Disney, do príncipe encantado e do beijo de amor que salva a donzela indefesa.
    “Merida rasgou o vestido, Elsa soltou o cabelo e jogou a coroa, e a Disney rompeu a barreira das princesas encantadas!” (Parte do meu texto)
    Enfim, sou fã sua, do seu blog e dos seus textos!

    Vou deixar o link do meu texto aqui, vai que…
    http://conversapraiaia.blogspot.com.br/2014/05/o-que-mudou-na-disney-nos-ou-suas.html

  6. Leticia 7 de junho de 2014
    às 21:54

    Que texto incrível! Ressalto aqui, também, a trilogia dos Jogos Vorazes. A história, particularmente, tem uma mensagem muito interessante: de opressores e oprimidos em torno do capital e tudo o mais. Mas, veja, a protagonista, Ketniss – por mais que a proposta inicial tenha sido a de criar-se uma guerreira, longe dos padrões – tem um homem do seu lado… taí mais um exemplo. A humanidade tem muito o que mudar ainda…

  7. Hyandra Thamires 11 de junho de 2014
    às 18:14

    Uma excelente reflexão Gabi! Eu nunca havia pensado nisso antes de entrar na faculdade e me deparar com conceitos feministas. Hoje penso em várias vertentes em que poderíamos mostrar que a vida da mulher não gira em torno do pensamento, das vontades e das opiniões dos homens!
    Obrigada por compartilhar mais uma vez algo tão profundo :)
    Beijo!

  8. Luísa Rodrigues 22 de julho de 2014
    às 19:35

    Vi esse post enquanto visitava seu blog, e achei um dos melhores textos sobre filme da disney e feminismo, aliás, quem melhor para falar dos filmes da disney do que nós, amantes do universo disney? Eu cresci vendo todos os filmes da disney, e concordei muto com você nessa parte de ”Crescer com filmes como Valente, Frozen e Malévola poderia ter mudado a minha cabeça desde cedo quanto às minhas amizades femininas”. Vivem falando o quanto mulheres são interesseiras e rivais mas eu não concordo com isso, mas só parei pra perceber isso depois de mais amadurecida. Parabéns pelo post!

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